Dias antes de ser alvo de mandados de busca e apreensão em sua residência, ordenados pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino, o secretário de Assuntos Legislativos do Maranhão, Raimundo Cutrim, divulgou um vídeo em 11 de julho em que denunciava o que chamou de “onda de terror” promovida por aliados do magistrado no estado.
No vídeo, Cutrim afirmava ter sido alertado sobre uma iminente ação contra ele, informou que circulava como “boato” disseminado por parlamentares “dinistas”. Ele também questionou a imparcialidade de Dino para julgar o caso em que se tornou réu, citando o fato de serem “rivais políticos”.
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Raimundo Cutrim, que também é delegado aposentado da Polícia Federal e ocupou por duas vezes a Secretaria de Segurança Pública do Maranhão, defendeu sua trajetória no vídeo, ressaltando ser um homem de “vida limpa”. Ele reconheceu o parentesco distante com Gilbson César Soares, autor confesso do homicídio no caso Tec Office, mas acusou o grupo político ligado a Dino de utilizar o crime de forma oportunista.
“Gilbson matou sob a luz do dia, confessou repetidas vezes. Disse que o fez por problema pessoal”, lembrou o secretário, criticando a mudança de narrativa posterior.
O ponto mais crítico da gravação é quando Cutrim relata ter tomado conhecimento de um suposto mandado de prisão por obstrução de Justiça através de parlamentares “dinistas”. Ele vai além, acusando esses mesmos parlamentares de se apresentarem como “portadores de recados propondo troca de sentenças do mesmo ministro por redutos eleitorais” nas eleições de 2024.
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A operação contra Cutrim, realizada na noite de 18 para 19 de julho, é vista como o ápice de um complexo xadrez jurídico no Maranhão, no qual o ministro Flávio Dino assumiu um papel central. O caso, inicialmente tratado como um inquérito de homicídio elucidado na esfera estadual, transformou-se no epicentro de uma disputa de poder.
A origem do crime remonta a 2022 com o assassinato do empresário João Bosco, desfecho de uma trama envolvendo recursos públicos, nomeações políticas e disputas entre agiotas. Tudo começa com uma conta de 2014 da Secretaria de Educação do Estado, que foi reativada em 2019 durante a gestão de Felipe Camarão, então secretário de Educação e pupilo político de Dino. João Bosco, com extensa ficha criminal e atuando como agiota, foi nomeado para um cargo na secretaria.
Em 2022, após Camarão se desincompatibilizar para concorrer à vice-governadoria, sua equipe realizou um pagamento daquela conta esquecida. Esse dinheiro público tornou-se o centro de uma disputa entre agiotas, culminando no conflito entre Gilbson César Soares e João Bosco. Gilbson matou João Bosco e, na época, o crime foi investigado, confessado, elucidado e Gilbson foi condenado pela Justiça estadual.
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Naquele momento, Gilbson apresentava uma narrativa clara: havia matado João Bosco por um problema pessoal. Ele chegou a afirmar em vídeos que agentes de segurança o pressionavam para implicar pessoas ligadas ao então governador Carlos Brandão, mas rejeitava essas pressões, mantendo que ninguém ligado ao governador tinha relação com o homicídio.
A narrativa mudou em 2024, coincidindo com o rompimento político entre o governador Carlos Brandão e Flávio Dino. A esposa de Gilbson declarou publicamente que havia procurado pessoas ligadas ao governador Brandão em busca de apoio para a soltura do marido, e ao não obter abertura, afirmou que procuraria “o outro lado”.
Após essa sinalização, Gilbson passou a apresentar novas versões sobre o crime, contrariando suas declarações anteriores. Essas novas versões envolviam pessoas do entorno do governador Carlos Brandão, como Raimundo Cutrim.
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O caso foi transferido para o Superior Tribunal de Justiça (STJ). Diante da falta de andamento processual na corte, ocorreu um movimento atípico: o ministro Flávio Dino avocou para si o processo no STF.
Em seguida, Flávio Dino proferiu decisão que mudou os rumos da investigação: concedeu liberdade ao assassino confesso. Fora da prisão, Gilbson passou a atuar midiaticamente, gravando vídeos e concedendo entrevistas com acusações diretas contra pessoas do entorno do governador Carlos Brandão.
As acusações que basearam a busca e apreensão contra Cutrim foram enviadas por Gilbson ao STF. O assassino confesso alega que o secretário cometeu os crimes de coação e fraude processual, orientando seu pai e sua esposa a mudarem a versão dos fatos para proteger aliados do governo.
A defesa de Cutrim argumenta que as falas foram retiradas de contexto e que a aproximação da família de Gilbson tinha motivações puramente financeiras, ocorrendo antes mesmo do homicídio. A defesa aponta ainda que a investigação do Ministério Público sobre a súbita mudança de versão foi paralisada justamente por um habeas corpus concedido pelo ministro Flávio Dino.
Fonte: Maranhão