O governo federal, sob a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, determinou a expulsão do Brasil de Sergey Vladimirovich Cherkasov, indivíduo apontado pelas polícias brasileira e americana como um espião russo. A medida, publicada no Diário Oficial da União, só será efetivada após o cumprimento da pena de 15 anos a que ele foi submetido no país, ou eventual liberação pelo Poder Judiciário.
Cherkasov, que se apresentava como o brasileiro Victor Müller Ferreira, terá sua entrada em território nacional proibida por 30 anos, contados a partir da data da expulsão.
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O Disfarce e a Descoberta
O russo viveu no Brasil utilizando uma identidade forjada, alegando ser um brasileiro nascido no Rio de Janeiro e com residência na Argentina. Sua verdadeira identidade veio à tona em abril de 2022, quando foi detido ao chegar em Amsterdã para iniciar uma nova missão.
Após sua deportação para o Brasil, as autoridades brasileiras descobriram que Cherkasov era, na verdade, um agente de inteligência a serviço da Rússia.
Investigações posteriores revelaram uma rede de apoio no Brasil que realizava depósitos mensais em espécie e de forma fracionada em sua conta, com o objetivo de dificultar sua identificação.
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Como parte de seu disfarce, Cherkasov frequentou cursos no exterior e chegou a participar de aulas de forró no Brasil.
Atividades e Finanças Suspeitas
Transações financeiras incomuns chamaram a atenção dos investigadores. Em depoimento ao FBI, Cherkasov relatou ter pago um curso na Irlanda com lucros obtidos na compra e venda de bitcoins.
Ele também teria utilizado economias próprias para custear uma pós-graduação nos Estados Unidos, com valor estimado entre US$ 80 mil e US$ 100 mil, mesmo sem possuir visto de trabalho.
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Enquanto esteve no exterior, Cherkasov recebeu depósitos em espécie em uma agência bancária no Rio de Janeiro, adquiriu automóveis e movimentou quantias significativas em corretoras de criptomoedas.
Missão nos EUA e Coleta de Informações
De acordo com a polícia federal americana, Cherkasov esteve nos Estados Unidos entre 2017 e 2020, operando sob direção e controle da Rússia.
Utilizando o pseudônimo de Victor Müller Ferreira, ele se matriculou na Universidade Johns Hopkins com o intuito de coletar informações sobre a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), cidadãos americanos e a política externa dos EUA.
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As informações coletadas eram destinadas ao benefício direto da Rússia e contrárias aos interesses americanos.
Decisões Judiciais e Pedido de Extradição
Em dezembro de 2024, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin rejeitou a entrega antecipada de Cherkasov à Rússia. Fachin argumentou que o espião ainda responde a inquéritos no Brasil por possíveis atos de espionagem, lavagem de capitais e corrupção passiva.
A Polícia Federal também se posicionou a favor da permanência de Cherkasov no país.
Na ocasião, Fachin destacou que a decisão sobre a liberação antecipada de um extraditando é prerrogativa exclusiva do Presidente da República.
Recentemente, a defesa de Cherkasov solicitou novamente ao STF a execução da extradição, informando que representantes da Embaixada Russa se reuniram com o Ministério da Justiça, que teria sinalizado que o espião deveria cumprir integralmente sua pena no Brasil.
O caso de extradição foi redistribuído para o ministro Luiz Fux.
Condenação e Tentativas de Retorno
Em junho de 2022, Cherkasov foi condenado pela Justiça brasileira a 15 anos de prisão pelo uso de documentos falsos.
No mês seguinte, a embaixada russa protocolou no Itamaraty um pedido de extradição do agente, encaminhado ao então ministro da Justiça, Anderson Torres, que o remeteu ao STF.
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A Rússia alegou que Sergey não era um espião, mas sim um traficante ligado a um grupo criminoso que fornecia heroína. Essa acusação, porém, foi oficializada pelas autoridades russas em junho de 2022, referindo-se a crimes supostamente ocorridos entre 2011 e 2013, período em que ele trabalhava em uma agência de turismo no Rio.
Cherkasov também relatou ao FBI ter visitado a Rússia durante a Copa de 2018 e ter viajado para Kaliningrado em setembro de 2021 para exames médicos.
Posicionamentos e Implicações Geopolíticas
Representantes da Embaixada da Rússia buscaram o Itamaraty para tratar da extradição, mas o Ministério das Relações Exteriores informou que o assunto já estava sob a alçada do STF.
Cherkasov, na prisão, expressou otimismo sobre um possível retorno à Rússia, referindo-se a si mesmo como “prisioneiro de guerra” em uma carta à namorada.
O caso também envolve o interesse dos Estados Unidos em impedir o retorno de Cherkasov à Rússia, devido às alegações de coleta de informações estratégicas.
Durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, o episódio foi tratado com discrição para evitar atritos com a Rússia, um importante fornecedor de fertilizantes.
A decisão do Ministério da Justiça sobre a expulsão pode gerar novas tensões entre Brasil e Estados Unidos, caso a defesa de Cherkasov insista na extradição para a Rússia.
Fonte: g1.globo.com