A Europa enfrenta uma escalada de recordes térmicos, com a segunda onda de calor significativa em apenas dois meses. Milhões de pessoas foram expostas a temperaturas acima de 35°C, e grande parte do continente registrou máximas superiores a 30°C. O Reino Unido bateu seu recorde de calor para junho, e países como França e Espanha viram seus termômetros atingirem marcas extremas, como 44,3°C e 43,7°C, respectivamente.
Europa: Um Laboratório Climático em Crise
O continente europeu, que aquece a uma taxa duas vezes superior à média global, tornou-se um termômetro das mudanças climáticas. As medidas de adaptação implementadas nas últimas duas décadas, desde a letal onda de calor de 2003, que causou mais de 70 mil mortes, têm sido testadas ao limite. Iniciativas como restrições ao trabalho em horários de pico, criação de ilhas de resfriamento, acompanhamento de grupos vulneráveis e comunicação mais eficaz sobre os riscos do calor têm salvado vidas no curto prazo.
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No entanto, especialistas alertam que essas ações tratam os sintomas, não a causa. O epidemiologista Nelson Gouveia, da Universidade de São Paulo, destaca que o monitoramento ativo de populações vulneráveis e o acesso a espaços climatizados e água são as medidas mais eficazes. Contudo, ele ressalta que há um limite para a adaptação.
A Falha Estrutural e o Ciclo Vicioso
A preparação europeia é voltada para crises pontuais, mas falha diante do que Gouveia chama de “novo normal”. A estrutura urbana histórica, com edifícios projetados para reter calor no inverno, agrava o problema, tornando o interior das casas mais quente que o exterior. A baixa penetração de ar-condicionado (cerca de 20% dos lares) leva a um ciclo vicioso: o uso intensivo desses aparelhos sobrecarrega redes elétricas, causa apagões e devolve calor às ruas, intensificando o efeito de ilha de calor urbana.
As projeções são alarmantes. Estudos indicam que a mudança climática foi responsável por cerca de dois terços das mortes ligadas ao calor no verão europeu de 2025. Projeções de longo prazo apontam para milhões de mortes adicionais até o fim do século, mesmo com avanços na adaptação. Economicamente, as perdas podem chegar a centenas de bilhões de dólares para as maiores economias europeias.
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Brasil: Vulnerabilidade e Despreparo Diante do Calor Extremo
No Brasil, o impacto das ondas de calor já é relevante, mas as medidas de prevenção e resposta são limitadas. Um estudo inédito estima que cerca de 120 mil mortes entre 2000 e 2019 podem ser atribuídas a esses eventos, com idosos representando a maioria das vítimas, seguidos por pessoas de menor renda e escolaridade. A maioria das cidades brasileiras ainda não possui planos estruturados para enfrentar temperaturas extremas, com dependência de recursos externos e uso limitado de dados.
Desafios Sociais e Urbanos no Contexto Brasileiro
A reprodução simples de modelos europeus no Brasil é inviável devido às profundas diferenças sociais e urbanas. O “racismo ambiental” e a “injustiça climática” se manifestam em periferias e favelas, onde condições precárias de moradia, falta de isolamento térmico e materiais de cobertura inadequados agravam a exposição ao calor. A desigualdade econômica impede que trabalhadores informais e de baixa renda suspendam atividades sem perdas financeiras, e o alto custo da energia limita o uso de ventiladores e o acesso ao ar-condicionado.
A falta de áreas verdes, especialmente nas periferias, aumenta a exposição ao calor. Além disso, as ondas de calor são frequentemente negligenciadas como desastres, devido à sua natureza menos visual em comparação com enchentes ou deslizamentos. Os efeitos na saúde, muitas vezes indiretos, como o agravamento de doenças crônicas, dificultam a associação direta com o calor, reduzindo a atenção e o investimento no problema.
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Projeções Futuras e a Urgência da Ação
As projeções para a América Latina indicam um aumento expressivo nas mortes relacionadas ao calor nas próximas décadas, com a proporção podendo mais que dobrar entre 2045 e 2054. Diante desse cenário global e das vulnerabilidades específicas do Brasil, a necessidade de políticas públicas robustas e adaptadas à realidade local torna-se urgente para mitigar os impactos crescentes das temperaturas extremas.
Fonte: G1