Vestido de grife em posse presidencial expõe ilha de luxo na Venezuela em meio à crise

Vestido de grife em posse presidencial expõe ilha de luxo na Venezuela em meio à crise

A posse de Delcy Rodríguez como presidente interina da Venezuela ganhou destaque internacional não apenas pelo contexto político, mas também por um detalhe em seu vestuário: um vestido da grife italiana Chiara Boni La Petite Robe, avaliado em cerca de 550 euros (aproximadamente R$ 3.800). O valor da peça, embora inferior a especulações de opositores, […]

Resumo

A posse de Delcy Rodríguez como presidente interina da Venezuela ganhou destaque internacional não apenas pelo contexto político, mas também por um detalhe em seu vestuário: um vestido da grife italiana Chiara Boni La Petite Robe, avaliado em cerca de 550 euros (aproximadamente R$ 3.800).

O valor da peça, embora inferior a especulações de opositores, contrasta drasticamente com o poder de compra do cidadão venezuelano comum. O salário mínimo no país, congelado em 130 bolívares desde 2022, equivale a meros R$ 2,46, evidenciando a profunda disparidade econômica.

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Este episódio lança luz sobre uma realidade pouco conhecida: a persistência de um mercado de luxo resiliente na Venezuela, mesmo após mais de uma década de profunda crise econômica.

Um oásis de consumo de elite em Caracas

Na capital venezuelana, Caracas, a presença de marcas de renome internacional é notável. Cinco distribuidores oficiais da Rolex operam na cidade, e a Galeria Avanti oferece uma vasta gama de roupas de grife. A poucas quadras dali, uma concessionária da Ferrari exibe seus carros de luxo, um símbolo visível da concentração de riqueza.

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O bairro de Las Mercedes e seus arredores emergem como o epicentro dessa prosperidade artificial, formando uma verdadeira “ilha” de riqueza em meio à escassez que afeta a maioria da população. Essa área também experimenta um “boom” gastronômico, com a proliferação de restaurantes de alta gastronomia que ostentam cardápios precificados em dólares.

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A dolarização como motor do mercado de luxo

A adoção do dólar como moeda corrente nesses estabelecimentos não é casual. Em 2020, o governo de Nicolás Maduro flexibilizou as restrições ao uso do dólar, beneficiando diretamente as classes alta e média alta, que possuem acesso à moeda estrangeira. Essa medida acentuou a dolarização da economia e, consequentemente, impulsionou o mercado de luxo.

O economista venezuelano Luis Vicente León explica que a classe alta da Venezuela, estimada em cerca de 6% da população (aproximadamente 2 milhões de pessoas), mantém um poder de compra significativo. Esse grupo, composto por empresários, políticos ligados ao governo e indivíduos temerosos de ter seus bens congelados, é o principal motor do consumo de luxo no país.

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León ressalta que, embora a corrupção esteja presente, não se pode generalizar e acusar todos os consumidores de alto padrão de obterem seus recursos de forma ilícita. No entanto, a elite venezuelana, incluindo aqueles sob sanções internacionais, encontra no consumo interno uma forma de manter seu capital circulando e acessível.

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Raízes históricas da desigualdade

A disparidade econômica na Venezuela tem raízes históricas profundas, que remontam ao período de auge da exploração petrolífera a partir dos anos 1920. A riqueza gerada pelo petróleo, que rendeu ao país o apelido de “Venezuela Saudita”, nunca foi distribuída equitativamente, resultando em um cenário de contrastes gritantes, com prédios luxuosos convivendo lado a lado com favelas.

O choque do preço do petróleo nos anos 1970 e as crises da dívida externa nos anos 1980 agravaram a desigualdade social. A ascensão de Hugo Chávez ao poder em 1998 trouxe uma política de maior distribuição de renda, mas a situação começou a se deteriorar sob seu sucessor, Nicolás Maduro, agravada por sanções dos Estados Unidos e pela decadência da estatal PDVSA.

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O retorno da Ferrari e o paradoxo econômico

A história da Ferrari na Venezuela reflete esse paradoxo. A marca italiana chegou ao país nos anos 1950, em uma época em que Caracas era comparada a Paris, com a presença de grifes de luxo e eventos automobilísticos que atraíam pilotos renomados. Após um período de restrições à importação e o fechamento da concessionária em 2007 devido a sanções comerciais, a marca retornou em 2021.

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A reabertura da concessionária, agora localizada na Torre Jalisco, simboliza a retomada do mercado de luxo. No entanto, o preço do veículo mais acessível da Ferrari, a partir de US$ 255 mil (aproximadamente R$ 1,37 milhão), sublinha o abismo entre a elite consumidora e a vasta maioria da população que luta para suprir suas necessidades básicas.

Fonte: G1

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