Um extenso levantamento da Corregedoria da Polícia Civil de Minas Gerais desvendou um grave esquema de desaparecimento de armas de fogo de uma unidade policial em Belo Horizonte. Contrariando informações iniciais que apontavam para armamentos obsoletos, a investigação detalha o sumiço de quase 400 itens, incluindo pistolas de uso restrito e fuzis de alto poder de fogo.
Inventário revela magnitude do desvio
O documento de 56 páginas ao qual o jornal O Tempo teve acesso revela um inventário chocante. São 105 pistolas, com calibres variando entre 6.35 e 9mm, e 13 fuzis e submetralhadoras, entre eles um fuzil 7.62 avaliado em cerca de R$ 40 mil. O valor total do armamento extraviado é estimado em R$ 1,75 milhão.
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A apuração, conduzida pela 2ª Subcorregedoria, cruzou dados de inventários com sistemas de registro policial. O resultado aponta que a grande maioria dessas armas foi parar nas mãos de criminosos, muitos deles envolvidos com o tráfico de drogas.
Armamento de uso restrito em circulação
Um caso crítico destacado no relatório envolve uma pistola calibre 9mm, de uso restrito devido ao seu alto poder letal. A arma foi apreendida originalmente em Esmeraldas, na Região Metropolitana de BH, em 2020. Entre setembro de 2023 e maio de 2024, ela foi apreendida quatro vezes em diferentes bairros de Belo Horizonte: Nova Cintra, Tirol, Aglomerado da Serra e Cachoeirinha.
O histórico de trânsito e apreensões desta pistola evidencia uma clara quebra de custódia estatal. O artefato circulou entre diferentes pessoas e foi encontrado em situações ligadas a diversas naturezas delitivas, com intervalos de apenas um a quatro meses entre as apreensões consecutivas.
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Dificuldades na apuração e valor subestimado
A perícia enfrentou dificuldades durante a investigação devido à especificação incompleta de muitos itens no inventário original. Isso impediu a valoração exata de algumas peças, mas a estimativa de R$ 1,8 milhão reforça a gravidade do rombo financeiro causado pelos extravios.
A Polícia Civil foi procurada para comentar os novos dados identificados pela Corregedoria, mas não havia se manifestado até a publicação desta reportagem.
Números do armamento extraviado
O levantamento detalha a quantidade e o tipo de armamentos e outros itens que desapareceram da unidade policial:
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- Revólveres: 230
- Pistolas: 105
- Fuzis e Submetralhadoras: 13
- Espingardas, Garruchas e Armas Artesanais: 45
- Simulacros e Réplicas: 11
- Coletes e Acessórios Balísticos: Duas placas e uma capa de colete
- Carregadores: Cerca de 30 carregadores avulsos para pistolas
- Munições: 261 munições intactas de vários calibres
Mapeamento da circulação das armas
Um mapeamento georreferenciado realizado pela Corregedoria mostra os locais onde as armas recuperadas após o extravio foram encontradas. Os principais pontos de reincidência foram identificados em Contagem, Ibirité, Betim e Santa Luzia, além de diversas vilas e aglomerados de Belo Horizonte.
A ampla distribuição geográfica das armas recuperadas reforça a complexidade do fenômeno, dificultando a identificação de padrões territoriais fixos, uma vez que o armamento circula livremente entre diferentes grupos criminosos na região metropolitana.
Advogado questiona imparcialidade da investigação
Marcelo Machado, advogado da servidora Vanessa de Lima Figueiredo, apontada como responsável pelos desvios, questionou a parcialidade do relatório da Corregedoria. Ele alega que policiais que trabalhavam na mesma delegacia participaram da produção do inventário, o que poderia comprometer a lisura das investigações.
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Segundo o defensor, os policiais da unidade, especialmente os superiores de Vanessa, teriam interesse direto nos fatos, podendo também ser responsabilizados. Machado considera a planilha como um documento não idôneo, citando que objetos foram lançados em duplicidade para inflar as acusações.
O advogado ressaltou ainda que sua cliente exercia função administrativa e não deveria estar sob responsabilidade de guarda de armas, que, segundo ele, também não poderiam estar custodiadas em uma delegacia, especialmente nas condições em que estavam armazenadas.
Fonte: O Tempo