A nomeação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) tem gerado debate, especialmente por sua autodeclaração como evangélico e seu papel como interlocutor do presidente Lula com esse segmento. No entanto, sua trajetória e posicionamentos recentes têm levantado questionamentos e resistência entre lideranças religiosas e políticas.
Jorge Messias, atual Advogado-geral da União (AGU), tem sido uma figura chave na tentativa do governo Lula de se aproximar do eleitorado evangélico, que representa uma parcela significativa da população brasileira e onde o presidente enfrenta alta rejeição. Sua indicação para o STF, em substituição a Luís Roberto Barroso, destaca-se por trazer um perfil declaradamente evangélico ao primeiro escalão do governo.
A estratégia de Lula em designar Messias para essa aproximação é vista como uma aposta em um aliado leal com um perfil religioso, crucial em um ano pré-eleitoral. Contudo, a relação de Messias com o segmento evangélico nem sempre foi harmoniosa. Em 2023, ele foi vaiado durante a Marcha para Jesus em São Paulo ao mencionar o presidente Lula. Nos anos seguintes, embora tenha permanecido como representante do governo no evento, evitou citar diretamente o petista.
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Pastor descreve Messias como “conservador-social”
Ligado à Igreja Batista Cristã de Brasília, onde atua como diácono, Jorge Messias é liderado pelo pastor Sérgio Carazza. Carazza descreve Messias como um “conservador-social”, a favor da vida e da família, mas com um viés voltado para a justiça social. Segundo o pastor, Messias seria contrário ao aborto e atuaria em uma entidade que ampara mulheres em situação de vulnerabilidade.
Pareceres sobre aborto e “ideologia de gênero” geram críticas
Apesar da descrição de seu pastor, Jorge Messias tem sido alvo de críticas por pareceres emitidos pela AGU. Um deles defendeu a derrubada de uma norma do Conselho Federal de Medicina que proibia a assistolia fetal, um procedimento relacionado ao aborto. Outro parecer apontou “circunstâncias graves” na manutenção de uma lei do Espírito Santo que garante aos pais o direito de impedir a participação de seus filhos em atividades ligadas à ideologia de gênero nas escolas.
Esses posicionamentos têm sido interpretados por opositores e segmentos religiosos como contrários aos valores cristãos conservadores, especialmente no que tange à defesa da vida e à família tradicional. A deputada federal Carla Dickson (União Brasil-RN) afirmou que alguém a favor da assistolia fetal não pode ser considerado cristão, e que a Bíblia protege a vida e a família tradicional.
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Resistência no Congresso e alinhamento com Lula em tese de doutorado
Lideranças da bancada evangélica no Senado, como Carlos Viana (Podemos-MG), ainda não se manifestaram oficialmente, mas há sinais de reprovação. Além das questões religiosas, a nomeação de Messias ao STF é vista por opositores como uma tentativa de aparelhamento da Corte com aliados do presidente. Paralelamente, a tese de doutorado de Messias, apresentada na UnB, tem sido analisada por seu forte alinhamento com o discurso lulista, criticando o que chama de “conservadorismo e autoritarismo do STF” em relação ao PT e defendendo a eleição de Lula como uma “reconstrução” após o que descreveu como um “golpe” contra Dilma Rousseff.
A criação da Procuradoria Nacional da União de Defesa da Democracia (PNDD) dentro da AGU, apelidada de “Ministério da Verdade”, também tem sido apontada como um ponto de controvérsia, com críticos alegando que a pasta tem rejeitado denúncias de desinformação apresentadas por adversários do governo. Messias também teve seu visto revogado pelo governo dos Estados Unidos durante a gestão Trump, juntamente com outras autoridades brasileiras consideradas próximas a Alexandre de Moraes.