A Procuradoria-Geral da República (PGR) promoveu Januário Paludo e Mônica de Ré ao cargo de subprocuradores-gerais. A decisão, publicada nesta terça-feira (7), recoloca no alto escalão da instituição figuras proeminentes da extinta força-tarefa da Lava Jato.
A medida, embora formalmente administrativa, carrega um forte peso institucional e sinaliza a continuidade da influência de membros da Lava Jato, operação marcada por investigações controversas e que teve papel significativo no cenário político brasileiro, especialmente na eleição de 2018.
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A ascensão de Paludo e de Rê é vista também à luz da gestão do atual procurador-geral da República, Paulo Gonet, considerado por parte do sistema de Justiça como alinhado ao pensamento da Lava Jato.
Gonet tem se posicionado contra a revisão de condenações oriundas da operação e, desde o início de 2024, a PGR sob sua chefia tem atuado ativamente para reverter anulações de processos determinadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Figuras centrais da Lava Jato chegam ao topo da PGR
Januário Paludo e Mônica de Ré foram peças-chave no núcleo responsável pelas principais investigações conduzidas na 13ª Vara Federal de Curitiba.
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Ambos participaram ativamente da análise de provas, da elaboração de denúncias e da articulação interna da força-tarefa.
A operação se notabilizou nacionalmente pela promessa de combate à corrupção, mas foi alvo de críticas por supostas práticas ilegais e perseguição a opositores políticos, em conjunto com o então juiz Sergio Moro.
A influência de Januário Paludo dentro da Lava Jato era notória entre os próprios procuradores.
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Mensagens reveladas pela Operação Vaza Jato indicavam a existência de um chat entre procuradores denominado “filhos de Januário”, uma referência direta ao seu papel de liderança informal.
Diálogos expõem tom desrespeitoso e parcialidade
As mesmas mensagens da Vaza Jato expuseram o tom considerado desrespeitoso e parcial adotado por alguns integrantes da operação em discussões internas.
Em um diálogo de janeiro de 2017, Deltan Dallagnol, ex-chefe da força-tarefa, informou a Paludo sobre a internação da ex-primeira-dama Marisa Letícia, afirmando que ela estava “sem resposta, como um vegetal”.
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Paludo respondeu ironicamente: “Estão eliminando as testemunhas…”. Marisa Letícia faleceu oito dias depois.
No dia seguinte à morte de Marisa Letícia, Paludo expressou suspeitas sobre a causa em conversas com colegas:
“A propósito, sempre tive uma pulga atrás da orelha com esse aneurisma. Não cheirou bem. E a segunda morte em sequência”.
Em outra ocasião, ao comentar a possibilidade de Luiz Inácio Lula da Silva deixar a prisão para o enterro de um irmão, Paludo escreveu:
“O safado só queria passear”.
Esses diálogos sugerem um padrão de comportamento que destoava do esperado para membros do Ministério Público, mesclando juízo pessoal, desrespeito e análises políticas em discussões sobre casos sob investigação.
Mônica de Ré também figura nas trocas de mensagens como integrante do grupo da força-tarefa, participando do ambiente onde procuradores discutiam estratégias e avaliações sobre os casos.
Embora não haja registros públicos com o mesmo grau de repercussão das falas de Paludo, sua presença reforça o contexto coletivo em que essas práticas se desenvolveram.
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Especialistas criticam promoção e defendem afastamento
Para o jurista Marco Aurélio de Carvalho, do grupo Prerrogativas, um dos críticos mais vocais da Lava Jato, a promoção representa uma oportunidade perdida para a reconstrução institucional.
Ele argumenta que não se trata de perseguição, mas da defesa das instituições contra “maus elementos” que minam a credibilidade do Ministério Público.
Em declarações ao ICL Notícias, Carvalho afirmou que Januário Paludo “ao invés de uma promoção, deveria ser afastado a bem do serviço público”, classificando sua atuação na Lava Jato como “escandalosamente parcial”.
Segundo o jurista, o Ministério Público “perdeu a oportunidade de recuperar parte da credibilidade que foi abalada pela instrumentalização de alguns de seus quadros a serviço de interesses políticos eleitorais”, citando Paludo como um exemplo desse processo.
Legado da Lava Jato sob reavaliação e PGR na defesa da operação
A promoção ocorre em um momento em que o legado da Lava Jato continua a ser reavaliado por decisões judiciais e por novas revelações.
O STF tem anulado processos importantes da operação, e as mensagens da Vaza Jato trouxeram à tona questionamentos sobre a imparcialidade de parte da atuação da força-tarefa.
Nesse cenário, a PGR tem se manifestado contra a anulação de condenações, como a do ex-ministro José Dirceu, e recorreu de decisões que invalidaram atos da Lava Jato.
Em relação a Antonio Palocci, o órgão também apresentou recurso contra a anulação de ações, defendendo a validade da delação premiada e a ausência de prejuízo à defesa que justificasse a invalidação.
A atuação da PGR inclui ainda recursos contra decisões que suspenderam ou anularam acordos de leniência, como o da J&F, contestando a alegação de coação na assinatura dos acordos.
A leitura nos bastidores é que a promoção de Paludo e de Rê reforça no topo da instituição uma linha de atuação que, segundo críticos, agiu em desacordo com o devido processo legal.
Além da atuação conjunta com Sergio Moro para condenar figuras ligadas ao PT, a força-tarefa propôs em 2019 a criação de uma fundação para gerir R$ 2,5 bilhões de uma multa da Petrobras.
O projeto visava um fundo privado, gerido pelos próprios procuradores para fins anticorrupção, mas foi barrado pelo STF por ser considerado ilegal. O dinheiro foi posteriormente destinado às áreas de educação e meio ambiente.
Fonte: G1