O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, tornou-se o centro de fortes críticas no Palácio do Planalto e entre lideranças do PT. A insatisfação atingiu o ápice nesta quarta-feira (8) após Galípolo isentar o ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, de responsabilidade no colapso do Banco Master, que resultou em um prejuízo estimado em mais de R$ 50 bilhões ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
A estratégia governamental para se desvincular do escândalo do Master foi definida em diversas reuniões palacianas. Desde o início da crise, os ministérios da Fazenda e da Casa Civil, juntamente com a Secretaria de Comunicação, avaliaram que o caso poderia prejudicar a imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sua busca pela reeleição.
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A ordem partiu do alto escalão para vincular as irregularidades cometidas por Daniel Vorcaro, proprietário do Master, à gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Lula chegou a classificar o escândalo como um “ovo da serpente” de Bolsonaro e Campos Neto, e petistas passaram a chamar o caso de “Bolsomaster”, buscando associá-lo também ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário político de Lula.
Contudo, durante seu depoimento à CPI do Crime Organizado no Senado, Galípolo não seguiu o roteiro traçado pelo governo. Ao ser questionado sobre a responsabilidade de Campos Neto no processo que levou à liquidação do Master, o presidente do Banco Central limitou-se a afirmar que não encontrou nada que desabonasse seu antecessor.
“Não há, em nenhum processo de auditoria ou de sindicância, nada que encontre qualquer culpa por parte do ex-presidente Roberto Campos Neto”, declarou Galípolo. “Consigo relatar aqui o que está nos autos”.
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As declarações geraram revolta no Planalto e no PT. Nos bastidores, petistas já expressavam descontentamento com a atuação de Galípolo, indicado em 2024 a pedido do ex-ministro Fernando Haddad. O próprio presidente Lula admitiu, no mês anterior, ter ficado “triste” e “frustrado” com a decisão do Copom de reduzir a taxa de juros em apenas 0,25 ponto percentual.
Em conversas reservadas, membros do governo apontam que Galípolo estaria agindo para “agradar” o mercado financeiro, a Faria Lima, possivelmente visando uma futura “volta ao mercado”, apesar de seu mandato ir até dezembro de 2028.
“Gabriel Galípolo escolheu o caminho de tentar blindar Roberto Campos Neto. Ao afirmar que não existe auditoria, sindicância ou conclusão interna que aponte responsabilidade do ex-presidente do Banco Central, ele demonstra que o controle interno é insuficiente e pode servir de escudo para proteger quem comandava a instituição quando decisões e omissões favoreceram o ambiente em que o caso Master prosperou”, protestou o deputado Lindbergh Farias (RJ), vice-líder do governo na Câmara.
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Pressão governamental para atribuir culpa a gestão anterior
A pressão do Planalto para que o presidente do Banco Central direcionasse toda a culpa das irregularidades a Bolsonaro, Campos Neto e seus aliados, desviando o foco da crise, não é recente. Embora já ocorresse nos bastidores, a divergência tornou-se pública com o depoimento de Galípolo.
Interlocutores de Galípolo garantiram à imprensa que ele não cederá a “retaliações” e manterá um “trabalho técnico”, evitando colocar o Banco Central no centro de disputas eleitorais.
Banco Central teme retaliações e busca autonomia orçamentária
A principal preocupação dentro do Banco Central é a possibilidade de o governo tentar “asfixiar financeiramente” a autarquia, por meio da oposição à PEC da autonomia orçamentária, que tramita na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado.
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Na mesma sessão da CPI, Galípolo chegou a pedir “socorro” aos senadores para a aprovação da PEC, argumentando que o Banco Central perdeu quase um quarto de seus servidores na última década e enfrenta dificuldades para repor seu quadro funcional.
Com a expansão do Pix e novas funções em inovação, a autarquia aumentou suas responsabilidades, mas viu seu quadro de servidores diminuir. Lula e o PT, no entanto, são historicamente contrários à autonomia do Banco Central, defendendo que a política monetária deve estar alinhada às diretrizes do governo eleito.
Fonte: g1.globo.com