A interdição da obra de reconstrução da Ponte Queimada, que liga os municípios de Marliéria e Pingo d’Água no Vale do Aço, reacendeu o debate sobre a necessidade de medidas rigorosas de controle para evitar novas ameaças ao Parque Estadual do Rio Doce. A ponte, danificada por um incêndio em 2023, encontra-se paralisada por decisão judicial que exige a instalação de um ponto de monitoramento pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF) antes da retomada dos trabalhos.
Embargo e Tensão Judicial
A decisão de embargar a obra, proferida em outubro do ano passado, surge após um impasse entre o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e as prefeituras envolvidas. A ação movida pelo MPMG, a pedido de entidades ambientais como a Associação Mineira de Defesa do Ambiente (Amda) e a Fundação Relictos, visa garantir que a reabertura da Estrada do Salão Dourado, que atravessa o parque, não resulte em aumento do risco de incêndios e atropelamento de animais silvestres.
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O juiz Maycon Jesus Barcelos determinou que a obra só prossiga após a instalação de um posto de monitoramento pelo IEF. Além disso, estabeleceu prazos para a implantação de redutores de velocidade, placas de advertência e a apresentação de um plano de uso da rodovia e de monitoramento de atropelamentos de fauna.
Ações Divergentes e Problemas Estruturais
Enquanto a Prefeitura de Marliéria firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o MPMG, comprometendo-se a manter a ponte fechada ao tráfego indiscriminado até a instalação do posto de controle, o IEF entrou com um recurso judicial pedindo a ampliação dos prazos, alegando dificuldades logísticas e a necessidade de seguir a Lei de Licitações.
Paralelamente, o Departamento de Engenharia da Prefeitura de Marliéria apontou graves problemas estruturais na obra de reforma da ponte. Vistorias detectaram o uso de material de qualidade inferior, como dormentes com rachaduras e trincas, além da ausência de tratamento técnico adequado da madeira, sendo o suposto tratamento realizado de forma manual e inadequada.
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A empresa responsável pela obra, a MDP Construção Civil, nega as acusações, alegando que a questão será resolvida judicialmente e que o prazo para o tratamento da madeira foi insuficiente. A prefeitura, diante dos problemas, decidiu embargar a obra, que segue paralisada, e agora avalia a possibilidade de nova licitação ou convocação do segundo colocado.
Histórico de Ameaças ao Parque
A situação atual remete a outras tentativas históricas de cortar o Parque Estadual do Rio Doce por meio de estradas. Criado em 1944, o parque, que abriga a maior área contínua original de Mata Atlântica do país, já enfrentou outras ameaças, como a planejada construção de uma estrada em Revés de Belém nos anos 1970, que foi barrada por intervenção ambientalista.
A Estrada do Salão Dourado, onde se localiza a Ponte Queimada, tem um histórico de interdições e reconstruções. Inaugurada em 1950, foi interditada em 1951, mas liberada para o transporte de carvão para a antiga Acesita. A ponte foi destruída por cheias em 1979 e 1984, reconstruída em 1987, e novamente danificada por incêndio em 2023.
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O adensamento populacional no Vale do Aço, especialmente em Timóteo, tem sido uma fonte constante de pressão sobre os limites do parque. Ocupações irregulares e incêndios, como o ocorrido em 1993 que atingiu mil hectares do parque, evidenciam a fragilidade da sua proteção em áreas de divisa, como a que se faz por cerca de de arame em Timóteo.
Importância da Conservação e Perspectivas Futuras
O Parque Estadual do Rio Doce é um santuário ecológico, abrigando espécies ameaçadas como a onça-pintada, o macuco e o muriqui, além de árvores centenárias e um sistema lacustre de grande valor. A Amda defende que a área de Mata Atlântica pertencente à siderúrgica Aperam seja transformada em Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs), uma proposta que a empresa afirma estar em análise técnica.
A região de Marliéria, Pingo d’Água, Córrego Novo e outros municípios próximos ao parque dependem economicamente da agropecuária e do comércio, com a ponte e a estrada sendo importantes vias de conexão. Contudo, a preservação do parque é vista como fundamental para o equilíbrio ambiental da região, o turismo e a pesquisa científica.
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O caso da Ponte Queimada evidencia a complexa relação entre desenvolvimento regional, infraestrutura e a necessidade imperativa de conservação ambiental. A resolução do embargo e a efetiva implementação das medidas de fiscalização pelo IEF serão cruciais para garantir a proteção a longo prazo do Parque Estadual do Rio Doce.
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