Apesar da era digital ter impulsionado o Pix e a facilidade dos cartões de crédito, o bom e velho carnê de loja não saiu de cena em Belo Horizonte. Longe de ser uma relíquia do passado, esse método de pagamento, que remonta a canções nostálgicas dos anos 90, continua sendo um pilar fundamental para o comércio de pequeno e médio porte na capital mineira.
O Fiel Companheiro do Comerciante de Bairro
Em bairros mais afastados dos grandes centros comerciais de BH, como Venda Nova ou regiões metropolitanas próximas, o crediário se estabelece como um elo de confiança entre lojistas e consumidores. A professora Maristela Costa Nunes, 65 anos, é um exemplo de fidelidade construída por meio dessa relação. Ela relata que, há cerca de 30 anos, o crediário foi sua porta de entrada para o consumo na Patotinha Calçados, pois ainda não possuía acesso a cartões de crédito.
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“A dona da loja confiou em mim e, aos poucos, foi aumentando o meu limite. Com isso, me tornei grata e fiel”, conta Maristela, que, mesmo hoje possuindo cartões de débito e crédito, mantém o hábito de usar o carnê em diversas lojas.
Samira Fernandes, gerente de marketing da Patotinha Calçados, confirma a força do crediário. Cerca de 60% das vendas em suas quatro unidades (três em Contagem e uma em Ibirité) são realizadas por meio dessa modalidade. “É o nosso principal público atualmente. Essa modalidade permite atender especialmente os clientes do bairro, sem comprometer o limite dos seus cartões, fortalecendo o relacionamento e a fidelização”, explica.
Confiança como Base e Cautela Necessária
Marcelo de Souza e Silva, presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH), destaca que o crediário floresce em locais com um perfil mais “de cidade do interior”, onde a relação de confiança é primordial. “O crediário favorece pessoas de menor renda, que não têm tanto acesso a crédito, e também é vantajoso para as lojas, uma vez que o cliente volta para pagar e acaba comprando mais”, aponta.
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No entanto, a confiança deve vir acompanhada de cautela. Marcelo alerta para a necessidade de análise rigorosa, especialmente para novos clientes. “Caso não haja um relacionamento estabelecido, o ideal é ir aos poucos, começando com valores baixos e menor número de parcelas. Também há ferramentas tecnológicas para checar se aquele cliente é bom pagador ou se tem alguma restrição financeira”, orienta.
A inadimplência é um desafio real, com 81,2 milhões de brasileiros endividados, segundo dados do Serasa. Para mitigar esse risco, a Patotinha Calçados realiza um “pente-fino” rigoroso nos cadastros. “Todos os clientes são cuidadosamente avaliados, o que garante mais segurança e sustentabilidade para o nosso negócio”, afirma Samira.
Alternativa aos Juros Elevados e Taxas das Maquininhas
A Leugim Magazine, fundada em 1982 na região de Venda Nova, em BH, acumula mais de 40 mil clientes em seu sistema de crediário, respondendo por aproximadamente 45% das vendas mensais. Elizabeth Correia, uma das proprietárias, ressalta que o crediário atrai tanto idosos desfamiliarizados com o Pix quanto jovens que evitam comprometer o limite do cartão.
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“Além disso, o crediário tem juros mais baixos e um tempo de tolerância maior após o vencimento. O cartão começa a cobrar juros no dia seguinte, enquanto o crediário leva em torno de cinco dias”, compara Elizabeth.
O presidente da CDL-BH reforça que, com a taxa Selic em patamares elevados, o crediário se torna uma alternativa atraente. “O consumidor endividado no cartão consegue comprar e o lojista tem uma alternativa às taxas das maquininhas”, diz. Elizabeth complementa que o prejuízo com inadimplência na Leugim é menor do que os gastos com taxas de cartão.
Gigantes do Varejo Adotam o Formato
O sucesso do crediário não se restringe a lojas menores. O Grupo Casas Bahia, um dos pioneiros no Brasil, estima que cerca de 285 mil clientes utilizem o crediário mensalmente, com um valor médio de R$ 2.400 por operação. No terceiro trimestre de 2025, o crediário representou 17,3% das operações do grupo, com destaque para as regiões Sudeste e Nordeste. Minas Gerais figura entre os três estados que mais utilizam essa modalidade.
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O perfil predominante são mulheres entre 45 e 65 anos, e os smartphones são os produtos mais adquiridos. A inadimplência do Grupo Casas Bahia encerrou o período em 8,4%, índice considerado estável e inferior ao do cheque especial (12,6%) e do cartão parcelado (11,1%).
Fonte: O Tempo