A recente atuação do governo Donald Trump na Venezuela, com ações diplomáticas e pressões econômicas, é vista por especialistas como uma reinterpretação da Doutrina Monroe, adaptada aos novos desafios geopolíticos do século XXI. Grace Livingstone, autora do livro “America’s Backyard: The United States and Latin America from the Monroe Doctrine to the War on Terror”, argumenta que essa nova abordagem, apelidada de “Corolário Trump” ou “Doutrina Donroe”, sinaliza uma defesa mais direta e explícita dos interesses dos Estados Unidos na região, com um foco particular em conter a crescente influência da China.
Um Legado Histórico Reimaginado
A Doutrina Monroe, estabelecida em 1823, visava impedir a intervenção de potências europeias no hemisfério ocidental. Ao longo do tempo, especialmente com o “Corolário Roosevelt” no início do século XX, os EUA passaram a justificar intervenções para “estabilizar” governos locais. No entanto, Livingstone destaca uma mudança fundamental na abordagem de Trump.
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“Os EUA abandonaram qualquer pretensão de que isso tenha sido feito pelo bem da democracia”, afirma a acadêmica, ligada à Universidade de Cambridge. Ela ressalta que a ação atual não se baseia em defender o Estado de Direito, mas sim em proteger “interesses diretos dos EUA, para controle de recursos e dos interesses das empresas americanas”.
A China como Alvo Estratégico
Uma das distinções mais marcantes da nova Doutrina Monroe, segundo Livingstone, é o direcionamento da mensagem. Se antes o alvo eram as potências europeias, agora o principal “concorrente não hemisférico” é a China. O crescimento econômico chinês na América Latina, através de investimentos e comércio, é visto por Washington como uma ameaça à sua esfera de influência.
A Estratégia de Segurança Nacional do governo Trump, publicada em dezembro, explicitamente menciona a Doutrina Monroe e a intenção de “negar aos concorrentes não-hemisféricos a capacidade de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais”. Isso demonstra um esforço para rechaçar a presença chinesa na região.
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Interesses Divergentes no Governo Trump
Apesar da clareza na retórica, Livingstone aponta para diferentes visões dentro do próprio governo Trump sobre a abordagem a ser adotada na América Latina. Enquanto figuras como o Secretário de Estado Marco Rubio possuem uma agenda mais ideológica, focada em mudanças de regime em países como Venezuela, Cuba e Nicarágua, o presidente Trump demonstra um interesse mais transacional e econômico, buscando abrir mercados para empresas americanas.
Essa dinâmica sugere uma política externa que pode variar entre intervenções mais incisivas e acordos pragmáticos, sempre com o objetivo de reafirmar o domínio americano.
Impacto e Respostas na Região
A política de Trump tem gerado reações diversas na América Latina. Enquanto alguns governos, como o da Argentina sob Javier Milei, mostram alinhamento com a postura americana, outros, como os do Brasil sob Lula e da Colômbia sob Gustavo Petro, expressam forte crítica ao que consideram imperialismo. A estratégia de “dividir para governar” de Trump busca isolar países, tornando a união regional um desafio diante das polarizações ideológicas.
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A Venezuela, com suas vastas reservas de petróleo, permanece um ponto focal. As alegações de envolvimento com tráfico de drogas, questionadas por Livingstone, parecem servir como justificativa secundária para o interesse primordial no acesso ao petróleo e na garantia de governos favoráveis aos interesses americanos. A possibilidade de um conflito prolongado e a instabilidade regional são cenários que pairam sobre o futuro da Venezuela e da América do Sul.
A influência da China na região, embora buscada de forma mais discreta e econômica, representa um contraponto estratégico aos movimentos de Washington. A resposta chinesa a essa reafirmação da Doutrina Monroe deve ser observada de perto, pois o equilíbrio de poder na América Latina está em constante redefinição.
Fonte: BBC News Brasil
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