A Bolsa de São Paulo, a B3, segue em trajetória de valorização expressiva, com o Ibovespa batendo recordes e acumulando uma alta de 36% em 2025. Este desempenho ocorre em um momento de desaceleração da economia brasileira, que, segundo dados do IBGE, cresceu apenas 0,1% no terceiro trimestre e levou o país a cair do grupo das dez maiores economias do mundo, sendo ultrapassado pela Rússia.
O Paradoxal Rally da Bolsa
A aparente contradição entre o desempenho econômico e o comportamento da bolsa se explica pela expectativa do mercado financeiro em relação à política monetária. A leitura predominante é que a desaceleração da atividade econômica, impulsionada pela taxa básica de juros (Selic) em patamares restritivos de 15% ao ano, sinaliza um menor risco inflacionário.
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Essa perspectiva abre caminho para que o Banco Central (BC) inicie um ciclo de corte de juros. Juros mais baixos tendem a tornar as ações mais atrativas para investidores, especialmente em comparação com a renda fixa, que oferece retornos mais modestos quando a Selic recua.
Filipe Villegas, estrategista de ações da Genial Investimentos, explica que a redução dos juros impacta diretamente os lucros das empresas. “Se, nos próximos doze meses não tiver nenhum corte de gastos, e ela manter o que ela gera de receita hoje, o simples fato de reduzir juros significa que elas têm menos custos com a dívida, sobrando mais dinheiro para investimento, diminuir alavancagem, e sobre mais dinheiro para distribuir para o acionista”, afirma.
Freio no PIB: Um Movimento Esperado
A desaceleração do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre não foi uma surpresa para muitos analistas. Projeções de mercado já apontavam para um crescimento modesto, em linha com a política monetária contracionista adotada pelo BC para conter a inflação. Entre setembro de 2024 e junho de 2025, a Selic foi elevada de 10,5% para 15% ao ano.
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Apesar de indicadores como o desemprego apresentarem bons resultados, o consumo das famílias mostrou um avanço tímido de 0,1% em relação ao trimestre anterior. Na comparação anual, o crescimento foi de 0,4%, o menor desempenho desde 2021.
Claudia Dionisio, analista do IBGE, ressalta que a política monetária restritiva “está contribuindo para esse freio”. O Ministério da Fazenda, em nota, associou a desaceleração do consumo ao “desaquecimento dos mercados de trabalho e crédito no terceiro trimestre, em resposta aos impactos defasados” dos juros.
Setores Exportadores Impulsionam o Crescimento
A composição do PIB revelou que a demanda externa foi um motor importante para a economia brasileira. As exportações de bens e serviços cresceram 3,3% no terceiro trimestre, superando o avanço das importações (0,3%). Essa performance positiva da balança comercial contribuiu para mitigar o impacto da desaceleração interna.
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Setores voltados para exportação, como o agronegócio e a indústria extrativa (petróleo, gás e minerais), foram os grandes destaques. O agronegócio registrou uma alta de 10,1% na comparação anual, enquanto a indústria extrativa avançou 11,9% no mesmo período. Juntos, foram responsáveis por mais da metade do crescimento de 1,8% do PIB agregado em relação ao terceiro trimestre de 2024.
Rebeca Palis, coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, aponta que o redirecionamento de exportações para outros mercados e o aumento das compras chinesas de matérias-primas, como soja e petróleo, ajudaram a minimizar o impacto de tarifas impostas pelos Estados Unidos.
Perspectivas para a Bolsa e Juros
Analistas do mercado financeiro, como os do JP Morgan, veem um potencial de continuidade na alta da Bolsa, com projeções que apontam o Ibovespa para até 230 mil pontos no fim de 2026. Fatores como a estabilização da inflação, a possibilidade de reformas estruturais e a atratividade dos mercados emergentes para investidores estrangeiros reforçam esse otimismo.
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No entanto, a trajetória de queda da Selic ainda é incerta. José Júlio Senna, ex-diretor do BC, argumenta que a desaceleração do PIB por si só não garante cortes iminentes. A decisão dependerá crucialmente das projeções de inflação para o médio prazo, que consideram diversos fatores, incluindo a atividade econômica, commodities, câmbio e expectativas de inflação.
Apesar de projeções indicarem que a inflação pode ceder à meta de 3% ao ano com a Selic mantida em 15%, a necessidade de um “grau de confiança elevado” para manter essa situação pode adiar o início do ciclo de cortes. A possibilidade de reaquecimento da demanda em 2026, com medidas como a ampliação da isenção do Imposto de Renda e maior gasto governamental em ano eleitoral, também pode influenciar o ritmo de afrouxamento monetário, com analistas sugerindo que o corte possa ocorrer em março de 2026.