A designação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como entidades terroristas internacionais pelo Departamento de Estado norte-americano representa a maior derrota do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na relação com a administração de Donald Trump desde a imposição de tarifas em 2025.
A disputa, que se arrastou por mais de um ano, parece ter sido vencida pelo grupo político liderado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
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O governo brasileiro se opunha à medida, argumentando que ela poderia comprometer a soberania nacional ao abrir margem para ações militares americanas sob o pretexto de combate ao terrorismo.
Adicionalmente, o Brasil sustentava que a designação contrariava sua legislação, que distingue as atividades de facções criminosas do terrorismo.
Em contrapartida, o grupo de Flávio Bolsonaro defendia publicamente a medida há mais de um ano, acusando o governo Lula de conivência com o crime organizado.
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A decisão veio um dia após Flávio Bolsonaro encerrar uma viagem a Washington, onde se reuniu com Trump, o vice-presidente J.D. Vance e o Secretário de Estado Marco Rubio.
Pressão e Imprevisibilidade
O governo brasileiro nunca considerou o assunto totalmente superado na administração Trump, dada a imprevisibilidade do então presidente, segundo assessores de Lula.
Durante sua passagem pelos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro afirmou ter defendido a medida contra as organizações criminosas brasileiras junto à equipe de Trump.
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Antes da viagem de Flávio, interlocutores de Lula indicavam, em caráter reservado, que um anúncio negativo da administração Trump seria interpretado como ingerência no processo eleitoral brasileiro, com respostas semelhantes às do caso das tarifas de 2025.
A BBC News Brasil apurou que o governo brasileiro pretende modular sua resposta para evitar maior desgaste interno, a poucos meses das eleições.
A resposta oficial deve sair após reuniões internas envolvendo o Ministério das Relações Exteriores e a Presidência, com possível participação de outras pastas como a da Fazenda.
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Espera-se que o governo defenda as ações recentes contra o crime organizado e reitere a abertura à cooperação internacional no combate às facções.
Um integrante do governo, em caráter reservado, reconheceu que a decisão americana foi resultado da ação da ala bolsonarista com acesso ao governo dos EUA.
A interpretação é que essa ala buscou criar constrangimento para o governo, levando a administração petista a se manifestar contra a medida para, posteriormente, ser criticada por suposta defesa de facções.
Um dos pontos de maior preocupação para o governo são os possíveis impactos no sistema financeiro brasileiro, com receio de sanções a empresas ou bancos por vínculos comerciais involuntários com as facções.
Histórico da Designação
A ideia de impor sanções a organizações criminosas brasileiras como PCC e CV como entidades terroristas era estudada pelo governo americano há anos.
Em 2021, o Tesouro dos EUA já havia incluído o PCC em uma lista de entidades designadas, permitindo sanções a seus integrantes ou empresas com negócios na facção.
No entanto, o plano de designar PCC e CV como terroristas ganhou força após o início do segundo mandato de Donald Trump, em 2025.
O plano era discutido internamente pelo Departamento de Estado, com apoio da Embaixada dos EUA em Brasília.
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Entre 2025 e 2026, assessores do Departamento de Estado se reuniram com promotores brasileiros especializados em crime organizado para obter mais informações.
Em maio de 2025, David Gamble, então chefe interino da estratégia de sanções do Departamento de Estado, e o assessor Ricardo Pitta visitaram o Brasil.
Pitta se reuniu com a família Bolsonaro, que, segundo Flávio, já defendia a designação das facções como terroristas naquele momento.
O governo brasileiro monitorava o movimento, vendo-o como potencial interferência americana no combate ao crime organizado.
Em julho de 2025, quando Trump impôs tarifas sobre produtos brasileiros, a diplomacia brasileira esperava uma possível medida sobre facções, o que não ocorreu.
O governo Lula tentou desconstruir o discurso pró-designação, argumentando que a classificação como terrorista não seria eficaz no combate ao crime.
Em setembro de 2025, Lula criticou a possível medida em seu discurso na Assembleia Geral da ONU.
“É preocupante a equiparação entre a criminalidade e o terrorismo. A forma mais eficaz de combater o tráfico de drogas é a cooperação para reprimir a lavagem de dinheiro e limitar o comércio de armas. Usar força letal em situações que não constituem conflitos armados equivale a executar pessoas sem julgamento”, disse Lula, referindo-se a ataques americanos a embarcações na costa de países latino-americanos.
O assunto continuou em pauta em Washington.
Operação de Emergência e Nova Visita
A possibilidade de designação seguiu sendo estudada pelo Departamento de Estado até que, em 8 de março deste ano, o portal UOL revelou que o governo americano estava prestes a adotar a medida.
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