Apesar de uma gestão macroeconômica historicamente elogiada e de um crescimento robusto nas primeiras décadas do século XXI, a economia peruana opera em um estado de “piloto automático”, ou “modo zumbi”, segundo especialistas. A contínua instabilidade política, marcada por sucessivas trocas de presidentes e ministros, tem minado o potencial de desenvolvimento do país, gerando oportunidades perdidas e impactando negativamente indicadores sociais.
A Resiliência Econômica Peruana em Meio ao Caos Político
Por anos, o Peru serviu como um farol de estabilidade macroeconômica na América Latina. O país manteve contas públicas saneadas, atraiu investimentos estrangeiros e sua moeda, o sol, permaneceu valorizada. Essa aparente impermeabilidade econômica diante das turbulências políticas era vista com admiração, especialmente em contraste com vizinhos assolados por crises financeiras. As reformas econômicas agressivas implementadas no início do século XXI criaram as bases para um período de expansão do Produto Interno Bruto (PIB).
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No entanto, a percepção de que economia e política peruana caminham em esferas separadas é uma meia verdade. “Existe um ponto a partir do qual a política afeta a economia”, adverte Armando Mendoza, economista do Centro Peruano de Estudos Sociais. A autonomia do Banco Central de Reserva do Peru (BCRP), garantida pela Constituição, tem sido crucial para manter a gestão técnica e a distância das disputas políticas, sendo um dos pilares da estabilidade macroeconômica.
O Custo das Oportunidades Perdidas
O ritmo de crescimento do PIB peruano, que chegou a superar 10% em alguns anos, desacelerou significativamente desde 2018, após a renúncia do então presidente Pedro Pablo Kuczynski. Desde então, o país viu uma sucessão caótica de oito presidentes. Em média, sem considerar os anos da pandemia de Covid-19, o crescimento anual tem ficado em torno de 2,3%, bem abaixo do potencial do país.
Especialistas como Diego Macera, diretor do Instituto Peruano de Economia, apontam que o Peru poderia ter se beneficiado muito mais do atual cenário de altos preços de commodities como ouro e cobre. “Com os preços internacionais atuais e a macro estabilidade que vivenciamos, não há motivo para não termos crescido mais de 4,5%, se nossos governos tivessem sido razoavelmente previsíveis e competentes”, afirma Macera.
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Impactos Sociais e o Desafio da Corrupção
A instabilidade política tem um preço direto para os peruanos. A taxa de pobreza, que era de 20% em 2019, subiu para 27,6% em 2024. Além disso, a renda real formal ainda não retornou aos níveis pré-pandemia. O ano de 2023 foi emblemático, com uma retração econômica de 0,55% após a destituição e prisão do presidente Pedro Castillo, que desencadeou protestos em todo o país.
A volatilidade na gestão pública é gritante: presidentes permanecem, em média, menos de dois anos no cargo, e ministros da Economia duram cerca de sete a oito meses. Essa falta de continuidade torna impossível a implementação de políticas de Estado consistentes e gera incerteza para o setor privado, especialmente para setores que exigem planejamento de longo prazo, como a mineração.
O Cenário Eleitoral e as Perspectivas Futuras
O Peru se prepara para novas eleições gerais, onde os eleitores escolherão presidente e Congresso, além de eleições locais e regionais. As pesquisas indicam um alto nível de descontentamento popular, com a corrupção sendo apontada como um dos principais problemas do país. Escândalos recentes levaram à queda de diversos presidentes, e a criminalidade organizada tem se infiltrado em segmentos do Estado.
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A mineração ilegal, em particular, representa um desafio econômico significativo. Estima-se que a exportação ilegal de ouro tenha atingido cerca de US$ 11,5 bilhões no ano passado, um valor comparável ao da exportação de produtos agroindustriais peruanos em 2014. As incertezas globais, como o conflito no Oriente Médio e seu impacto nos preços do petróleo, também adicionam uma camada de complexidade às projeções.
O Banco Central peruano projeta um crescimento de 2,9% para o PIB neste ano, o que ainda colocaria o Peru entre as economias de maior expansão na América Latina. No entanto, a renovação da diretoria do Banco Central, cujos membros dependerão do novo presidente e Congresso, é um ponto de atenção. A manutenção de Julio Velarde na presidência do BCRP, cargo que ocupa há 20 anos e é visto como garantia de solidez macroeconômica, é um desejo de muitos, mas ainda aguarda definição, em um país onde quase tudo parece incerto.
O desafio para os futuros governantes será tirar a economia peruana do seu “modo zumbi” e impulsioná-la para um crescimento sustentado, que beneficie a coesão social e o progresso de seus cidadãos.
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Fonte: BBC News