A promessa de Romeu Zema (Novo) em 2018 era clara: colocar as finanças de Minas Gerais em ordem, aplicando a lógica da eficiência empresarial após anos de crise fiscal e descrédito administrativo. Reeleito em 2022, o discurso evoluiu para a consolidação de resultados, com a narrativa de que a “casa” já estaria organizada.
Ao se aproximar de 2026, ano em que Zema pode almejar a Presidência da República, o balanço de sua gestão revela um cenário complexo, que vai além da retórica oficial.
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Avanços Fiscais e a Dívida Persistente
O principal trunfo político de Zema reside na área fiscal. Minas Gerais saiu do déficit crônico, passou a registrar superávits primários e regularizou repasses essenciais, restaurando a previsibilidade orçamentária. O pagamento em dia de salários e fornecedores marcou uma ruptura significativa com o caos herdado em 2019, sustentando a imagem de gestor austero.
Contudo, o ajuste fiscal não resolveu a questão estrutural da dívida pública, que ultrapassa os R$ 200 bilhões e continuou a crescer. Mesmo com superávits operacionais, o peso dos juros e a renegociação com a União mantêm o Estado sob pressão financeira.
Venda de Ativos: Pragmatismo ou Liquidação?
Nesse contexto, a venda de ativos públicos ganhou força na estratégia governamental. A alienação de imóveis e participações estatais é vista por aliados como pragmatismo, enquanto críticos a encaram como uma liquidação de patrimônio sem atacar a raiz do problema. A privatização da Copasa, autorizada pela Lei 25.664 de 2025, exemplifica essa abordagem, permitindo ao Estado deixar o controle da companhia, mas mantendo a golden share.
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Os recursos provenientes dessas desestatizações devem ser direcionados à amortização da dívida com a União ou ao cumprimento de obrigações do Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), com parte destinada ao fundo estadual de saneamento básico.
Economia em Destaque, Desigualdades à Vista
No campo econômico, Minas Gerais voltou a atrair grandes investimentos em setores como energia, mineração, indústria e infraestrutura, melhorando indicadores de ambiente de negócios e retomando protagonismo regional. No entanto, essa performance convive com críticas às políticas de renúncia fiscal e à dificuldade em transformar esses investimentos em desenvolvimento mais equitativo entre as diversas regiões do estado, do Norte de Minas ao Vale do Jequitinhonha.
Gestão Administrativa: Digitalização vs. Infraestrutura
A gestão administrativa de Zema deixou marcas na digitalização de serviços, na redução da burocracia e na reorganização interna do governo. Essas mudanças, embora menos visíveis para a população, otimizaram a máquina pública. Por outro lado, a própria Cidade Administrativa, símbolo da gestão, tem apresentado problemas estruturais, como falhas em elevadores, deficiências de manutenção e demora no atendimento de emergências, espelhando as contradições da reorganização.
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Desgaste com o Funcionalismo e Promessas Incompletas
O relacionamento com o funcionalismo público revela um desgaste mais acentuado, especialmente na área de segurança pública. Apesar das promessas de valorização, policiais civis, militares e penais acumulam perdas inflacionárias significativas. Medidas pontuais aliviaram pressões, mas não substituíram a recomposição salarial reivindicada, aprofundando o impasse em 2025 e 2026.
Na saúde, a ampliação de repasses e a retomada de obras ocorreram, mas hospitais regionais prometidos desde 2018 seguem com entregas parciais ou inacabadas, adiadas para o próximo governo. Educação e outros serviços públicos apresentam um cenário semelhante: avanços administrativos, mas frustração de expectativas e promessas cumpridas apenas parcialmente.
Desafios Políticos: Presidência e Sucessão Estadual
Politicamente, 2026 apresenta um cenário desafiador para Zema. Sua projeção nacional enfrenta dificuldades em converter o capital político mineiro em viabilidade presidencial. Pesquisas indicam desempenho modesto em cenários nacionais. Internamente, a sucessão estadual também não se mostra automática. O vice-governador Mateus Simões (PSD), apoiado por Zema, figura com índices baixos em pesquisas, enquanto outros pré-candidatos, como Cleitinho (Republicanos) e Alexandre Kalil (PDT), largam com vantagem.
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Embora Zema mantenha uma avaliação positiva em Minas Gerais, a transferência direta de apoio a um sucessor não é garantida, abrindo espaço para adversários na disputa de 2026. Ao almejar o Planalto, Zema transfere seu legado ao vice, que assume o desafio de preservar conquistas e gerenciar desgastes. Parte da casa foi arrumada, mas outra parte ficou para depois.
Fonte: Estado de Minas