Vaticano Pede Desculpas De Joelhos por Roubo de Terras no Peru Vinculado a Grupo Religioso Ultraconservador

Vaticano Pede Desculpas De Joelhos por Roubo de Terras no Peru Vinculado a Grupo Religioso Ultraconservador

Em um gesto de profunda humildade e reconhecimento, representantes da Igreja Católica se ajoelharam em sinal de perdão diante de comunidades camponesas no Peru. O ato, ocorrido no final de maio na cidade de Catacaos, noroeste do país, buscou reparar anos de denúncias de roubo de terras e perseguição, cujos responsáveis estariam ligados ao Sodalício […]

Resumo

Em um gesto de profunda humildade e reconhecimento, representantes da Igreja Católica se ajoelharam em sinal de perdão diante de comunidades camponesas no Peru. O ato, ocorrido no final de maio na cidade de Catacaos, noroeste do país, buscou reparar anos de denúncias de roubo de terras e perseguição, cujos responsáveis estariam ligados ao Sodalício de Vida Cristã, um agrupamento religioso ultraconservador fundado em 1971 e suprimido pelo Papa Francisco em abril de 2025.

A decisão papal de desmantelar o Sodalício seguiu investigações sobre denúncias de abusos sexuais, corrupção e má gestão de bens. Monsenhor Jordi Bertomeu, enviado especial do Vaticano para a dissolução do grupo no Peru, expressou pesar por ter chegado tarde para intervir, afirmando: “Chegamos tarde, deveríamos ter chegado há 20 anos, e sentimos muito por isso.” O monsenhor descreveu o momento como emocionante e carregado de um peso histórico, sentindo vergonha pela conduta de alguns membros da Igreja.

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As comunidades camponesas, herdeiras do povo indígena Tallán, alegam que seus direitos territoriais, com origens que remontam ao período colonial espanhol e até mesmo pré-colonial, foram violados em 1998. Naquele ano, uma suposta transferência fraudulenta de quase 10 mil hectares de terras foi registrada em cartório. Moradores afirmam que uma assembleia que teria decidido pela transferência nunca ocorreu, e que muitos dos supostos participantes eram falecidos ou negaram ter assinado a ata.

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Vínculos com o Sodalício

As terras foram posteriormente repassadas a empresas, incluindo a Asociación Civil San Juan Bautista (ACSJB), ligada ao Sodalício de Vida Cristã. A jornalista Paola Ugaz, que investigou os laços econômicos da organização religiosa no Peru, destacou a dificuldade inicial em vincular os eventos em Piura ao Sodalício, mas ressaltou a clara conexão entre poder econômico e religioso.

A ACSJB foi fundada por José Antonio Eguren, ex-arcebispo de Piura e um dos líderes históricos do Sodalício, que posteriormente foi afastado por decisão do Vaticano. Embora Eguren tenha renunciado ao conselho da empresa ao assumir funções eclesiásticas, investigações apontam que o movimento religioso manteve influência sobre as decisões da entidade.

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Em resposta às acusações, a ACSJB rejeitou qualquer participação em transferências ilícitas de terras, afirmando que as aquisições foram feitas em 2012 de proprietários legítimos, dentro do marco legal peruano. A empresa contesta a narrativa que busca atribuir responsabilidades à ACSJB, alegando falta de respaldo jurídico e verificação dos fatos.

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O Ponto de Inflexão e a Luta Judicial

A situação se agravou em dezembro de 2011, quando camponeses relataram a instalação de cercas em suas terras por desconhecidos. Confrontos ocorreram, e houve relatos de disparos. Guadalupe Zapata Sosa, um dos líderes locais que se opôs à ocupação, foi morto neste período, sendo reconhecido pelo Vaticano como uma das vítimas da disputa por terras ligada a empresas do Sodalício. Contudo, ainda não há sentenças judiciais definitivas que comprovem tais alegações.

O Papa Francisco já havia enviado uma mensagem de apoio à comunidade em abril de 2024, incentivando-os a defender suas terras. A dissolução do Sodalício em 2025 pelo Vaticano foi fundamentada em alegações de abuso na administração de bens, abuso de autoridade e encobrimento de crimes. A Santa Sé suspeita que o grupo operava através de uma estrutura jurídica de fachada para tomar decisões econômicas.

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Apesar do pedido de desculpas e do reconhecimento das injustiças, a via judicial no Peru tem sido um desafio. Em maio de 2026, a Justiça peruana rejeitou uma ação de amparo constitucional que buscava a restituição das terras. A decisão, confirmada em segunda instância, considerou o caso como uma controvérsia de relevância legal e não constitucional, o que, segundo a defesa dos camponeses, pode levar à prescrição dos crimes.

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Perspectivas e Reparações

A comunidade busca agora recorrer ao Tribunal Constitucional do Peru, mas as esperanças são limitadas. Jornalistas que investigaram o caso criticam a falha da Justiça peruana em proteger as vítimas, apontando que o poder econômico e político do Sodalício permanece influente. O Vaticano reconhece a crise institucional no Peru e a vulnerabilidade das comunidades originárias diante de interesses empresariais.

O Vaticano prometeu um caminho de reparação, tanto simbólica quanto econômica. A liquidação dos ativos do Sodalício está em andamento, e a Santa Sé pretende compensar as vítimas com esses recursos. A comunidade também avalia recorrer a organismos internacionais caso as instâncias nacionais não ofereçam uma solução favorável. A expectativa é que uma eventual visita do Papa Francisco ao Peru possa trazer novos avanços para o caso.

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Fonte: BBC News Mundo

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