Morte de El Mencho: Especialista aponta PCC como possível beneficiário e mais 'profissional' que cartéis mexicanos

Morte de El Mencho: Especialista aponta PCC como possível beneficiário e mais ‘profissional’ que cartéis mexicanos

A morte de Nemesio Oseguera Cervantes, conhecido como El Mencho, líder do poderoso Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), no México, levanta questionamentos sobre o futuro do crime organizado na América Latina. Especialistas apontam que, enquanto o México pode enfrentar um período de instabilidade e fragmentação interna no CJNG, facções brasileiras como o Primeiro Comando da […]

Resumo

A morte de Nemesio Oseguera Cervantes, conhecido como El Mencho, líder do poderoso Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), no México, levanta questionamentos sobre o futuro do crime organizado na América Latina. Especialistas apontam que, enquanto o México pode enfrentar um período de instabilidade e fragmentação interna no CJNG, facções brasileiras como o Primeiro Comando da Capital (PCC) podem emergir fortalecidas.

Roberto Uchôa, ex-policial e pesquisador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, sugere que a neutralização de El Mencho, um dos traficantes mais procurados por México e Estados Unidos, pode criar um vácuo de poder. Esse espaço, segundo Uchôa, seria propício para o PCC expandir sua influência em áreas estratégicas já exploradas pelo CJNG.

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Expansão do PCC em rotas e mineração

O PCC, segundo Uchôa, já demonstra capacidade de atuar em dois segmentos cruciais que podem ser afetados pela desarticulação do CJNG: as rotas de drogas sintéticas e cocaína com destino à Europa, e a mineração ilegal de ouro, juntamente com o comércio de mercúrio, na região amazônica.

A presença do CJNG na mineração ilegal se estende por países como Colômbia, Venezuela e Equador, envolvendo não apenas ouro, mas também outros minerais e o controverso comércio de mercúrio, com severos impactos ambientais na Amazônia. A fragmentação do cartel mexicano poderia dificultar a manutenção dessas operações, abrindo portas para organizações brasileiras.

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O ‘profissionalismo’ do PCC em contraste com o México

Uchôa destaca uma diferença fundamental na atuação das organizações criminosas brasileiras em comparação com as mexicanas. Ele aponta que o PCC tem se mostrado mais organizado e “profissional”, especialmente na forma como “regula o mercado da violência”.

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Diferentemente dos confrontos diretos e espetaculares frequentemente observados no México entre traficantes e o Estado, as ações violentas do PCC tendem a ser mais “utilitárias”, ou seja, calculadas e direcionadas para atingir objetivos específicos. Essa abordagem contrasta com a violência indiscriminada que, como ocorreu recentemente no México com disparos em aeroportos e ruas, pode fortalecer discursos como o do ex-presidente americano Donald Trump, que enquadra esses grupos como terroristas.

Estrutura descentralizada e resiliência

A estrutura mais descentralizada do PCC e de outros grupos brasileiros, como o Comando Vermelho, é vista como um fator de maior resiliência. Ao contrário de organizações com líderes simbólicos centrais, a natureza fragmentada e corporativa do PCC, comparada a uma empresa, torna-o menos vulnerável a operações focadas na captura ou eliminação de seus líderes principais. Figuras como Marcola, mesmo presas há décadas, não paralisam a organização, que opera através de grupos de decisão colegiada.

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Essa resiliência é crucial em um cenário onde o crime organizado opera em um mercado sem espaços vazios, que são rapidamente preenchidos. A instabilidade gerada pela morte de El Mencho e a subsequente luta pela sucessão no CJNG podem levar clientes a buscar fornecedores mais estáveis, como o PCC, que já possui acesso à origem da produção de drogas na América do Sul.

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Desafios para as instituições brasileiras

A possível ascensão do PCC levanta preocupações sobre a capacidade das instituições brasileiras de segurança pública. Embora a Polícia Federal possua quadros experientes e conhecimento técnico, sofre com carência histórica de infraestrutura e pessoal, especialmente considerando a dimensão territorial e populacional do Brasil e sua posição como rota internacional de drogas.

Adicionalmente, a legislação brasileira apresenta entraves ao combate eficaz ao crime organizado. Projetos de lei que visavam fortalecer o enfrentamento às facções foram modificados no Congresso, retirando ferramentas importantes para o combate ao “andar de cima” do crime, focando excessivamente na repressão do “andar de baixo”.

Geopolítica criminal e a hipocrisia americana

A operação contra El Mencho, realizada com cooperação EUA-México, é vista por alguns como um troféu para a política externa americana, mas não uma solução para a raiz do problema. Especialistas criticam a “hipocrisia americana” ao focar no combate às drogas sem abordar o fluxo de armas dos EUA para o México, que alimenta a violência dos cartéis.

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A política de “guerra às drogas”, replicada em outros países latino-americanos, tem demonstrado resultados limitados, gerando mais violência e instabilidade, enquanto os EUA celebram capturas e neutralizações pontuais. A possibilidade de o CJNG retaliar de forma violenta pode, paradoxalmente, fornecer aos EUA o argumento para classificar o cartel como organização terrorista, intensificando a pressão sobre o México.

A recente execução do ex-delegado Ruy Ferraz Fontes em São Paulo, em uma ação de alta complexidade tática, exemplifica a força e o planejamento do crime organizado no Brasil. Especialistas apontam que tais atos, cada vez mais espetacularizados, demonstram a capacidade do PCC de agir com ousadia e impor pânico, ao mesmo tempo em que expandem suas atividades para a economia formal. A resposta estatal, segundo analistas, precisa ser mais inteligente e articulada, indo além da mera repressão policial.

Fonte: BBC News Brasil

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