O presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificou sua atuação nos bastidores para encontrar uma solução para a crise financeira da Raízen, uma das maiores empresas de açúcar e etanol do mundo. Nas últimas semanas, Lula convocou uma reunião em Brasília com executivos e representantes de acionistas e bancos envolvidos nas negociações para socorrer a companhia, sinalizando a preocupação do governo com os impactos econômicos e políticos de um eventual desfecho desfavorável.
Pressão por capitalização e cenário de endividamento
A reunião, que ocorreu antes do Carnaval e da viagem presidencial à Ásia, contou com a presença de representantes da Cosan e da Shell, coproprietárias da Raízen, além do Banco BTG Pactual. O encontro teve como objetivo principal destravar caminhos para aliviar a pressão sobre o balanço da Raízen, que enfrenta um quadro de alavancagem elevada e aperto de liquidez após um trimestre financeiro insatisfatório e sucessivos rebaixamentos de rating por agências de classificação de risco.
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A empresa busca uma capitalização significativa para lidar com seu endividamento e a necessidade de caixa, em um cenário de custos de financiamento mais altos, safras abaixo do esperado e investimentos agressivos que ainda não geraram os retornos previstos. A deterioração do perfil de crédito da Raízen e a queda no valor de seus títulos reforçam a urgência em torno de um plano de estabilização.
Governo acompanha de perto e descarta solução via Petrobras
A preocupação do governo federal com a situação da Raízen se estende pela relevância da companhia no setor de biocombustíveis, área estratégica para a agenda de transição energética defendida pelo presidente Lula. A Raízen reúne, em sua conjuntura atual, grande escala, ligação com cadeias produtivas essenciais (etanol, açúcar, distribuição) e uma rápida deterioração de seu crédito, o que eleva o risco de contágio para o mercado financeiro e para a confiança em investimentos em setores estratégicos.
A reportagem da Bloomberg, que trouxe os detalhes da reunião, mencionou a possível participação da CEO da Petrobras, Magda Chambriard, e a discussão sobre a venda de ativos da Raízen para a estatal. No entanto, a Petrobras negou oficialmente a participação de Chambriard no encontro e descartou qualquer plano de aquisição de ativos da Raízen, o que limita a hipótese de uma solução direta envolvendo a empresa estatal.
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BNDES e a exigência de plano estruturado
Outro ponto relevante revelado é a movimentação da Cosan junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para obter apoio financeiro para a Raízen. Contudo, essa iniciativa teria encontrado resistência interna no banco de fomento, devido ao receio de aumentar a exposição ao grupo em um momento de deterioração de crédito. A avaliação dentro do BNDES e da equipe econômica é que qualquer ajuda estaria condicionada à apresentação de um plano de capitalização “concreto e estruturado”, demonstrando como os acionistas pretendem reforçar o capital e mitigar riscos de forma verificável.
O histórico recente do BNDES, que investiu R$ 409 milhões em uma oferta de ações da Cosan no fim do ano passado, em uma captação de R$ 10 bilhões, adiciona complexidade ao debate interno sobre limites de risco e critérios para novas operações.
Negociações avançam no exterior e foco nos acionistas
Após a reunião em Brasília, as tratativas se intensificaram, com BTG e Shell apresentando propostas. Novas rodadas de conversas teriam ocorrido em Londres e em São Paulo, indicando que o tema ganhou dimensão internacional e de negociação de alto nível. As alternativas em discussão incluem injeções de capital e outras medidas para estabilizar o balanço da empresa, visando reduzir o estresse de liquidez e reequilibrar a estrutura de capital, atacando a alavancagem que limita a capacidade de financiamento da companhia.
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O papel do BTG Pactual é visto como duplo: participante na busca por soluções e estruturador de alternativas de mercado. A Shell e a Cosan, como controladoras, são atores centrais para qualquer plano de capitalização, dada sua capacidade de aporte e poder decisório. O caso da Raízen se tornou um termômetro para o setor de bioenergia, que depende de empresas financeiramente saudáveis para impulsionar a transição energética.
Fonte: 247