A Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, tem se tornado um local frequente para atividades da Polícia Militar de Minas Gerais. Reuniões de instrução, cursos de formação e eventos institucionais são realizados em suas instalações, reproduzindo um modelo já visto em outras partes do país, como o estabelecido pela Igreja Universal do Reino de Deus.
Proselitismo e Conexões Políticas em Eventos Policiais
O proselitismo religioso ocorre de forma discreta, com pastores e missionários ocasionalmente convidados para discursar ou orar com os policiais. As ligações com o poder político são mais explícitas: o então vice-governador Mateus Simões discursou em um seminário de ambientação do Curso de Formação de Soldados no templo da Lagoinha em setembro de 2025.
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O luxuoso templo da igreja, com telões, canhões de luz e câmeras de alta resolução, já sediou reuniões de instrução para o carnaval em Belo Horizonte, reunindo centenas de policiais. Segundo relatos de militares, as convocações formais tornam a presença nesses eventos uma obrigação funcional, muitas vezes com o objetivo de transmitir instruções de serviço.
Críticas à Extensão da Jornada e Interferência no Descanso
O uso de templos religiosos para atividades policiais tem gerado críticas. Berlinque Antônio Monteiro Cantelmo, coordenador do Núcleo de Direito Militar e Segurança Pública da Escola Superior de Advocacia de Minas Gerais, aponta que militares têm sido convocados para comparecer a esses eventos em seus horários de folga. Ele considera inconcebível que policiais sejam obrigados a participar de cultos ou homilias em seu tempo livre, pois isso configura uma extensão da carga horária e interfere no descanso, além de desvirtuar a finalidade das reuniões, que deveriam focar em aprimoramento profissional.
Ampliação do Alcance das Convocatórias
As convocações não se limitam à Polícia Militar, estendendo-se a integrantes do Corpo de Bombeiros, Polícia Civil e agentes penitenciários. O programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd) em Belo Horizonte também tem realizado suas formaturas na Lagoinha nos últimos três anos, com a participação de centenas de crianças.
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Um sargento da PM ouvido pela reportagem sugere que a igreja oferece seus templos para impactar pessoas que não conhecem a estrutura religiosa, visando atrair novos fiéis. A Igreja Lagoinha confirma que cede o espaço quando solicitado.
Investigação do Ministério Público e Acusações de Favorecimento
Em outubro do ano passado, a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais convocou policiais penais para um seminário institucional na sede da igreja, o que levou o Ministério Público a instaurar um procedimento para averiguar um possível favorecimento. Deputados mineiros questionam a falta de transparência na escolha do local e possíveis gastos públicos envolvidos.
O governo de Minas Gerais defende a escolha de espaços de terceiros para eventos institucionais, alegando critérios técnicos, logísticos e operacionais. No entanto, a reportagem não obteve resposta sobre pagamentos pelo uso dos espaços, e o governo se recusou a informar quantas reuniões da PM ocorreram em templos e quais pastores participaram.
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Teologia do Domínio e Preocupações com a Laicidade
Roberto Uchôa de Oliveira Santos, pesquisador da Universidade de Coimbra, expressa preocupação com a proximidade entre igrejas evangélicas e forças de segurança. Ele aponta que a cooptação das forças policiais por um matiz religioso pode conferir poder a esses grupos, configurando uma assimilação de estruturas estatais que fortalece a “teologia do domínio”, onde cristãos teriam um mandato divino para controlar o Estado.
Enquanto o governo mineiro busca aproximação com o segmento evangélico, o estado enfrenta uma crise de segurança com o crescimento de facções criminosas, como o PCC e o Comando Vermelho. A reportagem sugere que a solução para esses problemas complexos não reside em apelos religiosos.
Fonte: CartaCapital
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