Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, obteve um lucro expressivo de R$ 124 milhões com a compra e venda de precatórios da Usina Fazenda Cambahyba. Localizada em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, a usina é um dos símbolos da violência política durante a ditadura militar brasileira, tendo sido utilizada para a incineração de corpos de opositores do regime.
As informações sobre o patrimônio de Vorcaro foram obtidas pela Receita Federal e encaminhadas à CPMI do INSS, após a quebra de sigilo bancário e fiscal do ex-banqueiro.
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Um passado sombrio em terras fluminenses
A Usina Fazenda Cambahyba, que já foi uma das maiores propriedades agroindustriais do Rio de Janeiro, abrange uma área de 3.500 hectares distribuídos em sete fazendas. Na década de 1970, o local ganhou notoriedade sinistra por ter sido palco da ocultação de pelo menos 12 corpos de opositores políticos do regime militar.
Em 2023, o ex-delegado do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), Cláudio Antônio Guerra, foi condenado a sete anos de prisão por ocultação de cadáver no complexo.
Em depoimento à Comissão Nacional da Verdade (CNV), Guerra relatou ter transportado corpos para serem queimados nos fornos da usina entre 1973 e 1975. Segundo o relatório da comissão, os cadáveres eram de presos políticos recolhidos na Casa da Morte, um centro clandestino de tortura em Petrópolis (RJ).
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Da desativação à negociação de dívidas judiciais
A Fazenda Cambahyba foi desativada na safra de 1995/1996. O empreendimento, que chegou a ocupar 6.763 hectares, entrou com ações judiciais contra o governo no final dos anos 1980 e início dos 1990.
O motivo eram os prejuízos causados pela política de preços do extinto Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), autarquia federal responsável pela regulação do setor. As ações buscavam compensações pelas perdas financeiras da época.
Em 2020, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que as indenizações só seriam pagas mediante comprovação dos danos sofridos pelas empresas. Essa decisão travou muitos processos e levou à revenda de diversos precatórios no mercado como “títulos podres”, de liquidação incerta.
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A estratégia de Vorcaro para o Banco Master
A aquisição dos precatórios da Fazenda Cambahyba integrou uma estratégia de Daniel Vorcaro para inflar o balanço do Banco Master. O ex-banqueiro apostou na compra e venda de direitos creditórios de usinas falidas.
Essa movimentação permitiu ao Master emitir mais Certificados de Depósito Bancário (CDBs), pois a emissão de dívidas exige a contrapartida de ativos no balanço da instituição.
Precatórios são dívidas reconhecidas pela Justiça, geralmente após processos movidos por cidadãos ou empresas, quando União, Estados ou municípios perdem ações judiciais e são condenados a pagar valores sem direito a recurso.
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A estratégia de Vorcaro consistia em investir em créditos de processos judiciais antigos e complexos, envolvendo massas falidas ou usinas em dificuldades. O valor de face desses precatórios era frequentemente superior ao preço de aquisição no mercado secundário.
Utilizando Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), Vorcaro “empacotava” e vendia suas participações, transferindo riscos ou realizando lucros para fundos especializados.
Lucro milionário e transações familiares
Entre março de 2021 e junho de 2022, Vorcaro investiu R$ 122,2 milhões em precatórios da Fazenda Cambahyba. Um lote de R$ 78.502.694,96 foi transferido pelo ex-banqueiro ao seu pai, Henrique Moura Vorcaro, como dação em pagamento.
Ao todo, Vorcaro faturou R$ 247 milhões com os precatórios da usina, resultando no lucro líquido de R$ 124 milhões. Outros lotes foram adquiridos por fundos como Kyoto Fundo de Investimento Multimercado, Cayman Fdic e Londres Fdic.
A defesa de Daniel Vorcaro foi procurada para se manifestar sobre as transações, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem.
Patrimônio Histórico e Assentamento Rural
Após quase duas décadas de disputas, a Fazenda Cambahyba foi declarada improdutiva pela Justiça em 2012. Em 2021, a área foi desapropriada e cedida ao Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).
Em 2023, o local foi formalizado como assentamento para 300 famílias do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), que reivindicavam a área há anos. O assentamento já está regularizado pelo Incra.
Em dezembro de 2024, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) tombou a Fazenda Cambahyba como patrimônio histórico do Estado.
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Fonte: Poder360