Escândalo do Banco Master arrasta políticos de direita e esquerda em rede de suspeitas

Escândalo do Banco Master arrasta políticos de direita e esquerda em rede de suspeitas

O escândalo envolvendo o Banco Master e seu principal executivo, Daniel Vorcaro, preso novamente na última quarta-feira (4), intensificou as trocas de farpas entre governistas e oposicionistas. Ambos os lados se acusam mutuamente de envolvimento com os negócios suspeitos da instituição financeira, que foi liquidada no ano passado. Desde então, lideranças políticas de espectros ideológicos […]

Resumo

O escândalo envolvendo o Banco Master e seu principal executivo, Daniel Vorcaro, preso novamente na última quarta-feira (4), intensificou as trocas de farpas entre governistas e oposicionistas. Ambos os lados se acusam mutuamente de envolvimento com os negócios suspeitos da instituição financeira, que foi liquidada no ano passado.

Desde então, lideranças políticas de espectros ideológicos opostos têm sido citadas direta ou indiretamente nas investigações. Nomes que vão de parlamentares do Congresso Nacional a governadores, ex-ministros e prefeitos foram mencionados, além de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), como Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.

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Uma proposta para a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o banco foi apresentada, mas o senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), presidente da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, já sinalizou que não pretende dar andamento à instalação da comissão.

As conexões de Daniel Vorcaro com o universo político são vastas e abrangem figuras de diferentes matizes ideológicos.

### Conexões de Vorcaro e o Banco Master

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A quebra de sigilo do telefone de Daniel Vorcaro revelou contatos e ofertas de auxílio a figuras políticas proeminentes. Em mensagens, o banqueiro ofereceu carona de helicóptero a Antônio Rueda, presidente do União Brasil, e ao presidente do PP, Ciro Nogueira, durante o Grande Prêmio de Fórmula 1 em Interlagos, em 2024.

Ciro Nogueira, aliás, foi chamado por Vorcaro de “grande amigo de vida” em uma das mensagens. O senador pelo Piauí apresentou, em 2024, uma proposta legislativa apelidada de “emenda Master”, que visava aumentar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para correntistas de R$ 250 mil para R$ 1 milhão em casos de liquidação de instituições financeiras.

O senador Nogueira, procurado, declarou que “não mantém nem nunca manteve qualquer conduta inadequada relacionada ao caso em apuração”. Antônio Rueda não se manifestou.

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### Governos Estaduais e Municipais na Mira

O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), foi arrastado para o escândalo através da Operação Barco de Papel da Polícia Federal. A investigação apura suspeitas relacionadas ao fundo de previdência dos servidores do estado, o Rioprevidência, que teria aplicado recursos no Banco Master.

O Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) também iniciou uma apuração sobre investimentos da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) na instituição financeira.

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Em janeiro, Castro exonerou Deivis Marcon Antunes, então diretor-presidente do Rioprevidência, e afirmou que o governo estadual está realizando um procedimento interno para apurar os fatos, reforçando o compromisso com a proteção do patrimônio previdenciário dos servidores.

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O senador Davi Alcolumbre, apesar de ter indicado que não abrirá a CPI, também aparece nas investigações. Mensagens indicam que o dono do Banco Master teve uma reunião em sua residência oficial no Senado em agosto passado, sem citar diretamente o parlamentar.

As apurações sobre o Master também têm como alvo Jocildo Silva Lemos, ex-diretor da Amprev (Amapá Previdência). Lemos foi nomeado em 2023 pelo governador Clécio Luís (União Brasil), mas sua indicação teria partido de Alcolumbre, de quem foi tesoureiro na campanha eleitoral de 2022.

A Polícia Federal investiga investimentos realizados pela Amprev em letras financeiras emitidas pelo Master, sob suspeita de gestão temerária. Documentos apontam a aprovação e execução de três aplicações sucessivas, totalizando quase R$ 400 milhões, em menos de 20 dias.

A assessoria de Davi Alcolumbre foi contatada, mas não se pronunciou sobre o caso.

### Ministros e Ex-ministros Envolvidos

Guido Mantega, que foi Ministro da Fazenda durante os governos Lula e Dilma Rousseff (2006-2014), foi contratado como consultor do Banco Master. Segundo o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi Mantega quem intermediou um encontro entre ele e Daniel Vorcaro no Palácio do Planalto em 2024.

O BRB (Banco de Brasília), vinculado ao Governo do Distrito Federal, anunciou em março de 2025 a aquisição de 58% das ações do Master. A operação atraiu a atenção de órgãos de controle, e em novembro foi deflagrada uma operação da PF para apurar a venda de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito consignado fraudulentas à instituição do DF.

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Vorcaro afirmou ter discutido a compra do banco com Ibaneis Rocha (MDB), governador do Distrito Federal, que confirmou o encontro, mas negou ter debatido o tema.

### Conexões Partidárias e Eleitorais

O ex-presidente Jair Bolsonaro teve como um de seus maiores doadores na eleição de 2022 o pastor Fabiano Zettel, da Igreja Lagoinha e cunhado de Daniel Vorcaro. Zettel repassou R$ 3 milhões à campanha de Bolsonaro.

Zettel foi preso na última quarta-feira, acusado pela PF de integrar um grupo responsável por intimidar adversários e pessoas ligadas às investigações do Banco Master. Valdemar Costa Neto, presidente do PL, minimizou o valor do repasse, afirmando que “todo mundo doa, esse pessoal doa pela força e pelo prestígio do Bolsonaro”.

O líder do governo Lula no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), confirmou ter indicado Ricardo Lewandowski para atuar como consultor do Banco Master após sua saída do STF. Além disso, Wagner foi secretário de Desenvolvimento Econômico na Bahia quando conduziu a privatização da estatal Ebal. Um dos ativos vendidos, Augusto Lima, que se tornou sócio do Master, criou o Credcesta, um cartão de benefício consignado utilizado pelo banco. Lima e Wagner mantêm amizade.

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O senador Wagner tem defendido que a privatização da Ebal foi um bom negócio para a Bahia.

O deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA) é apontado como o elo que levou o caso Master ao Supremo Tribunal Federal ainda em 2025. Ele aparece em um documento apreendido com Vorcaro sobre um negócio imobiliário na Bahia. Segundo o deputado, o documento se referia à criação de um fundo para o empreendimento, e Vorcaro teria demonstrado interesse em adquirir parte do projeto, mas a transação não avançou.

Em Maceió (AL), capital administrada por João Henrique Caldas (PL), há uma investigação em curso devido à aplicação de R$ 97 milhões pelo instituto de previdência local em letras financeiras do Master. O Maceió Previdência alega que os investimentos são regulares e que, à época, o Master estava habilitado no Banco Central e no Ministério da Previdência.

Outras cidades, como Aparecida de Goiânia (GO), onde o fundo municipal aplicou R$ 40 milhões no Master, também são alvo de investigações do Ministério Público. A prefeitura de Aparecida de Goiânia, comandada por Leandro Vilela (MDB), e o fundo municipal não retornaram aos contatos da reportagem.

### O Encontro com o Presidente

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se encontrou com Daniel Vorcaro fora de sua agenda oficial em dezembro de 2024, antes de as acusações contra o banco se tornarem públicas. Lula justificou o encontro alegando receber todos os bancos em seu mandato e que a reunião foi um pedido do ex-ministro Guido Mantega.

O presidente afirmou ter convidado para a reunião o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o ministro da Casa Civil, Rui Costa. Segundo Lula, Vorcaro relatou na ocasião estar sendo vítima de “perseguição” e que “tinha gente interessada” em derrubá-lo.

“O que eu disse para ele? Não haverá posição política pró ou contra o Banco Master. O que haverá será uma investigação técnica feita pelo Banco Central. Foi essa a conversa”, declarou Lula em fevereiro.

Vorcaro, em mensagens trocadas com sua namorada, a influenciadora Martha Graeff, elogiou o encontro, dizendo “Foi ótimo”. O dono do Master esteve outras vezes no Planalto, com pelo menos três registros de entrada na portaria da Secretaria de Relações Institucionais.

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O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) utilizou um jatinho ligado a Vorcaro para realizar campanha pelo então presidente Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2022. A aeronave percorreu capitais nordestinas e cidades mineiras entre 20 e 28 de outubro de 2022. Ferreira declarou não saber quem era o proprietário da aeronave e que, na época, não havia suspeitas sobre Vorcaro.

Ricardo Lewandowski prestou serviços ao Banco Master no período entre sua saída do STF em 2023 e sua nomeação como Ministro da Justiça em 2024. Seu escritório de advocacia, gerido por sua esposa e filho, continuou prestando serviços à instituição até agosto de 2025, mesmo após sua posse no ministério.

O Ministério da Justiça é o órgão responsável pela Polícia Federal, que investiga o banco. Na época da revelação, Lewandowski afirmou ter se afastado de seu escritório de advocacia e suspendido seu registro na OAB ao assumir a pasta ministerial.

### Gestão do Banco Central e Conexões

A oposição tem utilizado o período de gestão do ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto para vincular o escândalo a Jair Bolsonaro, que o indicou para o cargo. O Banco Master foi criado e cresceu durante a gestão de Campos Neto, em meio a alegações de fraudes.

Campos Neto nega inércia no caso e afirma que o Banco Central emitiu alertas ao Master para que a instituição ajustasse suas condutas às regras vigentes.

Na semana passada, a Polícia Federal cumpriu mandados na casa de Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor do Banco Central que atuou entre 2019 e 2023, durante a gestão de Campos Neto. O ministro André Mendonça, ao autorizar os mandados, afirmou que Souza atuou como uma “espécie de empregado/consultor” de Vorcaro.

O ministro da Casa Civil, Rui Costa (PT), tem seu nome ligado ao Banco Master através do Credcesta. Durante sua gestão na Bahia, o contrato de exclusividade do Credcesta, benefício consignado utilizado pelo banco, foi estabelecido por 15 anos, o que impulsionou o produto.

O Credcesta se expandiu nacionalmente, alcançando 24 estados e 176 municípios no final de 2024, e agora está sob escrutínio devido a acusações de irregularidade.

Fabiano Zettel, o pastor e cunhado de Vorcaro, foi também o maior doador da campanha do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), em 2022, com um repasse de R$ 2 milhões.

Fonte: FOLHAPRESS

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