O debate sobre modelos econômicos alternativos ao capitalismo selvagem ganha contornos cada vez mais acirrados, com o empreendedorismo emergindo como força dominante, muitas vezes em detrimento da economia solidária. Essa tensão, segundo o professor Renato Dagnino, da Unicamp, representa uma batalha ideológica crucial para o futuro da organização social e do trabalho.
A Ascensão do Empreendedorismo no Cenário Econômico
O neoliberalismo, ao desmantelar o Estado de bem-estar social nas últimas décadas, abriu espaço para a consolidação do empreendedorismo (ED) como modelo de negócio hegemônico. A concentração de renda e a financeirização da economia reduziram as oportunidades de empregos tradicionais e a ascensão social para as novas gerações, tanto da classe proprietária quanto da média.
CONTINUA APÓS O ANÚNCIO
Essa conjuntura forçou filhos de famílias de classe média a abandonarem a ambição de explorar a classe trabalhadora e a buscarem novas formas de rentabilizar seu capital social e intelectual. O empreendedorismo tornou-se, assim, um caminho para manter um padrão de vida relativamente confortável, ainda que aquém do de seus pais.
A lógica do ED se infiltrou em diversas esferas, levando indivíduos a se perceberem como empresas e a buscarem a autogestão de seus próprios negócios, mesmo em pequena escala. Essa mentalidade, socialmente legitimada, passou a abranger também a classe trabalhadora.
Economia Solidária: Um Contraponto Necessário
Em contrapartida, a economia solidária (ES) surge como uma proposta de organização que visa a sustentabilidade e a desconstrução da herança capitalista. No entanto, Dagnino aponta uma preocupação crescente: a invasão do campo de atuação da ES por propostas organizacionais do empreendedorismo.
CONTINUA APÓS O ANÚNCIO
As chamadas “outras economias” – verde, de impacto, criativa, circular, sustentável – muitas vezes incorporam o ED sem questionar os princípios fundamentais do capitalismo, como a heterogestão e a propriedade privada dos meios de produção. Elas buscam apenas uma atualização do modelo existente.
Essa penetração do ED nas políticas públicas voltadas para economias alternativas é vista como um elemento ideológico que reforça a hegemonia neoliberal. O autor critica o papel de governos social-democratas que, ao tentar “arrumar” o Estado e o mercado capitalistas, acabam por limitar o espaço para alternativas que beneficiem a maioria da população.
O Empreendedorismo como Instrumento de Controle e Exploração
Dagnino argumenta que o ED funciona como um instrumento central utilizado pelo capital para gerenciar um “coto de caça” de força de trabalho. Essas pessoas, embora não sejam empregadas formais, contribuem para manter baixos salários e estão disponíveis para serem “caçadas” pelo capital.
CONTINUA APÓS O ANÚNCIO
O empreendedorismo oferece a ilusão de incorporação ao circuito de acumulação de capital e a valorização comunitária. Contudo, no mercado informal, esses empreendedores competem de forma predatória, sem as parcas compensações do trabalho assalariado clássico.
A lógica do ED permite que as empresas adquiram, a baixo custo, o resultado do trabalho desses novos empreendedores. Eles continuam a comprar produtos e serviços das grandes corporações, gerando dados valiosos que impulsionam o lucro empresarial.
Impactos na Sociedade e a Busca por Alternativas
A classe proprietária, segundo o autor, utiliza o ED para legitimar uma forma de prevenir que a parcela trabalhadora se oriente para a autossuficiência, produzindo o que consome e concentrando seu consumo nos bens que é capaz de gerar.
CONTINUA APÓS O ANÚNCIO
O professor levanta a hipótese de que o ED possa ser visto como uma estratégia para mitigar a crise ambiental, ao alienar parte da força de trabalho do circuito capitalista e promover um regime de baixo consumo de energia. Essa visão, embora ousada, encontra eco na dificuldade do capital em implementar mudanças estruturais em face da crise climática.
Dagnino conclui que o ED, ao promover a ideia de ser o “patrão de si mesmo”, subverte a transformação do trabalhador de “classe em si” para “classe para si”, almejada pelo movimento socialista. Em vez disso, gera uma compulsão por se transformar em “classe empreendedora”, especialmente entre as gerações mais jovens.
A crítica ao ED, focada tradicionalmente em trabalhadores formais, ganha novas dimensões ao ser aplicada à economia solidária. A aceitação por parte de alguns setores da esquerda, que veem no empreendedor uma figura cuja renda não deriva diretamente da exploração, é vista com ressalvas. Dagnino defende a ES não como uma transição para o socialismo, mas como a construção de uma utopia baseada em formas de convivência para além do capital.