A recente demissão da renomada regente Ligia Amadio da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais (OSMG) desencadeou uma forte onda de indignação e manifestações de apoio vindas de diversos setores da música clássica no Brasil e no exterior. Amadio, que ocupava os cargos de regente titular e diretora musical, teve seu contrato encerrado pela Fundação Clóvis Salgado (FCS), entidade vinculada à Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Secult).
A Crise Iniciada na Assembleia Legislativa
O estopim para a crise ocorreu em novembro do ano passado, durante uma audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Na ocasião, Ligia Amadio expôs a precarização do trabalho dos músicos mineiros, afirmando que a OSMG seria “a orquestra mais mal paga deste país”. Ela revelou que um músico de fila recebia um salário mensal de R$ 1.618,72, um valor considerado extremamente baixo para o exercício da profissão em um corpo artístico de relevância nacional, que neste ano celebra 55 anos de existência.
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Repercussão e Manifestações de Apoio
A notícia da demissão de Amadio, ocorrida no início de janeiro, pouco mais de um mês após sua denúncia, mobilizou figuras proeminentes do cenário musical. Maestros como Roberto Minczuk (OSM de São Paulo), Carlos Prazeres (OSBA), Cinthia Alireti (Sinfônica da Unicamp) e Tiago Flores (Orquestra de Câmara da Ulbra) manifestaram publicamente seu descontentamento e apoio à regente. Instrumentistas de renome, como os violinistas Elisa Fukuda e Emmanuele Baldini (spalla da Osesp), e os pianistas Clara Sverner, Jean Louis Steuerman e Maria José Carrasqueira, também se pronunciaram, criticando o afastamento da maestrina.
Organizações internacionais como a Associação Mulheres na Música, da Espanha, e o Simpósio Internacional das Mulheres Regentes, que reúne mulheres à frente de orquestras e coros globalmente, emitiram cartas exigindo a reparação e a restituição da dignidade profissional de Ligia Amadio. Até mesmo em Belo Horizonte, o bloco de Carnaval Sagrada Profana, formado por mulheres, protestou nas ruas com uma faixa em homenagem à regente, demonstrando o alcance da comoção.
A Versão da Fundação Clóvis Salgado
Em resposta às críticas, a Fundação Clóvis Salgado (FCS) declarou que o encerramento do contrato de Ligia Amadio se deu por uma “readequação da programação” para as comemorações dos 55 anos do Palácio das Artes. A fundação informou que pretende convidar regentes que já fizeram parte da história da OSMG para conduzir apresentações em 2026. Sobre a questão salarial, a FCS contestou os valores apresentados por Amadio, afirmando que a remuneração média dos integrantes da orquestra em janeiro deste ano foi de R$ 7.868,91, com o menor salário registrado em R$ 4.289,10 e o maior em R$ 14.356,88.
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Contracheques Revelam Realidade Distinta
No entanto, a reportagem teve acesso a contracheques de três instrumentistas concursados da OSMG que apresentam números diferentes. Um músico com 12 anos de casa recebeu pouco mais de R$ 1.600 como décimo terceiro salário em 2025, já com descontos de previdência e assistência médica. Outro integrante com a mesma antiguidade teve uma remuneração em torno de R$ 4.500 em dezembro passado, incluindo gratificações e descontos. Um terceiro contracheque, de um instrumentista com 25 anos de serviço, mostra um valor pouco acima de R$ 7.000, também com gratificações e descontos aplicados.
Um Abaixo-Assinado Crescente
A insatisfação com a demissão de Ligia Amadio se manifesta também em um abaixo-assinado online que pede o seu retorno à frente da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. Até o fechamento desta matéria, a petição já acumulava mais de 13 mil assinaturas, evidenciando o forte apoio popular e profissional à regente e a preocupação com os rumos da instituição musical mineira.
Fonte: Estado de Minas
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