Em 2000, em um artigo publicado na Folha de S.Paulo, o renomado economista Delfim Netto, figura proeminente durante o regime militar e um dos arquitetos do chamado “milagre econômico”, lançou um olhar crítico sobre o neoliberalismo, que se consolidava como doutrina dominante à virada do século.
Delfim Netto questionou os fundamentos do sistema capitalista quando este se desequilibra, afirmando que “o sistema capitalista deixa de ser funcional quando não há um relativo equilíbrio entre a liberdade, a igualdade e a eficiência produtiva”.
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A reflexão do economista partiu de uma análise histórica das utopias, desde Thomas More até Karl Marx, reconhecendo a crítica histórica à concentração de riqueza. No entanto, Delfim Netto ressaltava que a experiência histórica, em especial a soviética e de seus satélites, demonstrava que a “eliminação da propriedade privada leva à ausência do mercado e à completa sujeição do indivíduo ao Estado”.
O Dilema da Relativa Igualdade
O cerne da questão, segundo Delfim Netto, residia em “como construir instituições que produzam relativa igualdade sem comprometer a eficiência produtiva e a liberdade dos cidadãos?”. Ele contrapunha os modelos de economia centralizada, que tendem a sacrificar eficiência e liberdade em prol da igualdade econômica, aos de economia descentralizada, que priorizam eficiência e liberdade em detrimento da igualdade.
Para o economista, a relação entre desigualdade econômica e crescimento é intrinsecamente complexa, envolvendo três variáveis interdependentes: desigualdade, crescimento e liberdade política. O desafio seria manter essas três em um “relativo equilíbrio”.
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Democracia e Mercado como Mecanismo Adaptativo
Delfim Netto propôs uma solução pragmática para esse dilema. Ele defendia que a combinação entre o “processo democrático de resolver os conflitos (as urnas)” e o “processo econômico que busca certa racionalidade (o mercado)” constituía um “mecanismo adaptativo eficiente”.
Essa fusão, segundo ele, permitiria acomodar os “três valores não inteiramente compatíveis: liberdade, igualdade e eficácia produtiva”. Ele observou que a história sugere uma correlação entre liberdade política, liberdade econômica e desenvolvimento material, onde a ausência de um Estado autoritário e a não submissão da sociedade civil a tutelas exclusivas favorecem a busca por eficiência e inovação tecnológica.
O Ponto Fraco do Neoliberalismo
A análise de Delfim Netto, publicada em um período de forte influência neoliberal, já antecipava um ponto de fragilidade dessa corrente. Ele apontava que a política neoliberal “coloca em dúvida a sobrevivência” do sistema capitalista precisamente porque “para ela, a igualdade é de menor importância”. Contudo, o economista reforçava que “a busca da igualdade é uma constante na história do homem”.
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O artigo faz parte da seção “105 Colunas de Grande Repercussão”, que relembra textos marcantes da Folha de S.Paulo como parte das comemorações de 105 anos do jornal, a serem celebrados em fevereiro de 2026.
Fonte: Folha de S.Paulo