Coletivos armados na Venezuela geram incertezas sobre transição política após prisão de Maduro

Coletivos armados na Venezuela geram incertezas sobre transição política após prisão de Maduro

A recente prisão do ditador Nicolás Maduro, em uma operação conduzida pelas tropas de elite americanas, deu início a um período de transição política na Venezuela. No entanto, a presença de grupos armados conhecidos como “coletivos” nas ruas de Caracas tem ampliado as incertezas sobre como se dará a estabilidade no país. Esses coletivos, que […]

Resumo

A recente prisão do ditador Nicolás Maduro, em uma operação conduzida pelas tropas de elite americanas, deu início a um período de transição política na Venezuela. No entanto, a presença de grupos armados conhecidos como “coletivos” nas ruas de Caracas tem ampliado as incertezas sobre como se dará a estabilidade no país.

Esses coletivos, que variam de organizações sociais a grupos paramilitares pró-Maduro, têm sido vistos circulando armados e à paisana, gerando preocupação sobre seu papel no novo cenário político, sob o governo interino da presidente Delcy Rodríguez.

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Desmobilização como desafio central

Especialistas apontam a desmobilização desses grupos como um dos maiores obstáculos para uma eventual transição democrática na Venezuela.

A atuação dos coletivos tem sido associada à manutenção do medo e do controle interno, dificultando a organização de protestos contra o regime.

A análise de especialistas indica que o grupo mais influente entre os coletivos é composto por policiais e militares à paisana, que executam ações de repressão.

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Esses agentes ganharam proeminência em momentos de crise, como no golpe de Estado de 2002 contra Hugo Chávez e em protestos urbanos em 2007, 2014 e 2017.

Brian Naranjo, ex-diplomata dos Estados Unidos, afirma que os coletivos estão sendo utilizados para “manter o medo nas ruas” após a queda de Maduro.

Segundo Naranjo, os grupos operam sob as ordens de Diosdado Cabello, ministro do Interior, e são uma ferramenta para manter o controle das ruas.

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A mobilização dos coletivos em grandes cidades impede que os venezuelanos expressem publicamente sua felicidade com a saída de Maduro, ganhando tempo para o governo interino se estabilizar.

Objetivos incertos e histórico complexo

Por outro lado, alguns analistas, como Roberto Briceño-León, professor de sociologia e fundador do Observatório Venezuelano da Violência, expressam incerteza sobre os objetivos atuais dos coletivos.

Briceño-León questiona a atuação desses grupos nas ruas na ausência de manifestações populares, buscando entender a mensagem que desejam transmitir aos atores políticos.

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A coordenação de Delcy Rodríguez com os Estados Unidos, aliada à ideologia anti-imperialista de alguns coletivos, levanta uma questão sobre sua lealdade.

Esses grupos, com afinidade ideológica a figuras como Che Guevara, historicamente defendem a tomada do poder pela via armada.

Naranjo expressa dúvidas sobre a capacidade de qualquer figura, exceto Diosdado Cabello, de desarmar esses grupos, considerando a dificuldade em enfrentá-los.

A natureza difusa e ideológica dos coletivos os torna um alvo complexo, capazes de se misturar facilmente em bairros populares.

Superestimação e funcionalidade do discurso

Keymer Ávila, da Universidade Central da Venezuela, avalia que o papel político e militar dos coletivos tem sido superestimado.

A amplificação do papel desses grupos beneficia diversos atores, incluindo a oposição, o governo venezuelano e até mesmo o governo americano.

Para a oposição, o discurso sobre os coletivos justifica a inação política, apresentando-os como um bloco criminoso em vez de adversários políticos.

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Para o governo, o discurso serve para intimidar protestos, legitimar o uso excessivo da força e infundir medo em potenciais governantes pós-chavistas.

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O governo americano, por sua vez, utiliza o discurso para justificar ações contra o narcotráfico e grupos como o “Tren de Aragua”, apresentando-os como organizações criminosas.

Origens e evolução dos coletivos

Os coletivos surgiram nas décadas de 1980 e 1990, a partir de dissidências da guerrilha venezuelana, com influência e apoio de Cuba.

Inicialmente civis e politizados, foram cooptados por Hugo Chávez, que lhes destinou financiamento e recursos para diversas iniciativas.

Com o tempo, estabeleceu-se uma relação simbiótica entre os coletivos e as forças policiais, com membros de ambos os lados atuando em conjunto.

O governo de Nicolás Maduro viu um fortalecimento desses grupos, que resistiram a tentativas de monopólio estatal do armamento.

Com as crises econômicas, parte dos coletivos migrou para atividades criminosas, enquanto outros se dissolveram ou mantiveram-se como pequenas organizações sociais.

Fonte: Estadão

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