Enquanto a Venezuela clama pela libertação de Nicolás Maduro, detido nos Estados Unidos, a vice-presidente Delcy Rodríguez tem liderado uma reconfiguração estratégica do poder no país.
Nos últimos meses, Rodríguez tem promovido uma série de substituições em cargos de alta relevância nas Forças Armadas e no alto escalão do governo, além de extinguir programas sociais emblemáticos do chavismo.
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A mais recente movimentação envolveu o procurador-geral Tarek William Saab, que permaneceu no posto por nove anos e era conhecido por sua atuação contra opositores políticos. Sua saída foi anunciada por Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional e irmão de Delcy.
Saab, um dos fundadores do Movimento Quinta República (MVR), legenda pela qual Hugo Chávez se elegeu em 1998, era considerado um pilar do chavismo e próximo a Maduro. Ele assumirá o cargo de defensor do povo, com atribuições de fiscalizar o governo e garantir os direitos humanos.
A professora de relações internacionais Marsília Gombata, da Faap, avalia que Delcy Rodríguez está promovendo uma “transformação importante do chavismo”, afastando “pessoas importantes do núcleo duro chavista para colocar pessoas próximas a ela”.
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Outra figura afastada foi o empresário colombiano Alex Saab, apontado como intermediário financeiro de Maduro. Após ser preso em Cabo Verde e extraditado para os EUA em 2021, ele retornou à Venezuela em uma troca de prisioneiros e havia ingressado no regime em outubro de 2024.
Saab foi destituído da liderança do Centro Internacional de Investimento Produtivo (CIIP), principal agência de investimentos do país, e também do cargo de ministro da Indústria. Em seu lugar na CIIP, Delcy indicou Calixto Ortega, um banqueiro com formação nos Estados Unidos.
A nomeação de Ortega, com um perfil menos político, pode ser interpretada como uma resposta à pressão de Washington, mas também reflete divergências econômicas prévias entre Alex Saab e Delcy Rodríguez.
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A esposa de Alex Saab, Camila Fabri de Saab, que chefiava o plano governamental “Retorno à Pátria”, também foi exonerada. Magaly Gutié rrez Viñ a, ex-ministra da Saúde e presidente do Instituto de Seguridade Social, também foi substituída.
“É como se Delcy quisesse colocar essas figuras [leais a Maduro] na geladeira”, comenta Gombata.
Reestruturação militar e neutralização de rivais
Delcy Rodríguez também empreendeu uma reestruturação nos comandos militares, trocando generais de pelo menos 12 das 28 comandâncias regionais.
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A líder interina, que não possuía forte influência nas Forças Armadas, nomeou o ex-chefe do serviço de inteligência (Sebin), Gustavo González, como novo comandante de sua guarda presidencial.
Essa decisão foi vista como uma manobra para neutralizar a influência de Diosdado Cabello, ministro do Interior e considerado o principal rival interno de Delcy Rodríguez no regime.
A jornalista especializada nas Forças Armadas Nacionais Bolivarianas, Sebastiana Barráez, afirma que Cabello representa a maior ameaça à liderança de Delcy, com aparições públicas que buscam demonstrar força.
A filha de Cabello, Daniela, foi nomeada para o Ministério do Turismo, em uma estratégia de Delcy para “manter o inimigo muito mais perto”, segundo Barráez.
Extinção de programas sociais e apagamento de legado
Sete programas sociais e órgãos do chavismo foram extintos sob a gestão de Delcy Rodríguez.
Quatro deles foram criados durante o governo Maduro, incluindo o Centro Estratégico de Segurança e Proteção da Pátria, responsável pela centralização de informações estratégicas sobre defesa e inteligência.
Três programas conhecidos como “missões”, também criados pelo ex-ditador, foram encerrados, assim como outros três implementados por Chávez.
Para Gombata, a extinção desses programas “simbolicamente, é uma desconstrução de uma das principais marcas do chavismo: programas sociais”.
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A professora avalia que há um “esforço para virar a página e deixar o que foram os anos Maduro para trás”, dada a associação de seu legado a “questões negativas”.
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