Os peruanos voltam às urnas neste domingo (7) para definir quem ocupará o Palácio de Governo pelos próximos cinco anos. A disputa se concentra entre a conservadora Keiko Fujimori, herdeira política do ex-ditador Alberto Fujimori, e o esquerdista Roberto Sánchez, ligado ao ex-presidente Pedro Castillo. O pleito ocorre em um cenário de extrema instabilidade política e institucional, marcado por uma sucessão vertiginosa de presidentes e escândalos de corrupção.
As pesquisas eleitorais mais recentes indicam um cenário de acirrada disputa. Levantamentos divulgados em 31 de maio apontam Keiko Fujimori com ligeira vantagem sobre Roberto Sánchez, mas ambos tecnicamente empatados dentro da margem de erro. Uma pesquisa da Ipsos para o jornal Perú21 mostrou a conservadora com 40,4% contra 38,3% do esquerdista. Já o Datum, para o El Comercio, registrou 39,7% para Keiko e 35,4% para Sánchez.
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Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, que governou o Peru de 1990 a 2000 e foi deposto por corrupção e violação de direitos humanos, busca a presidência pela quarta vez. Formada em administração de empresas pela Universidade Boston, ela foi a deputada mais votada da história do Peru em 2006. No entanto, sua trajetória política tem sido marcada por acusações e detenções relacionadas ao escândalo da Odebrecht, que a levaram a ser presa preventivamente em duas ocasiões. Seu projeto político, alinhado ao neoliberalismo fujimorista, inclui propostas como a expulsão de imigrantes e a aproximação com os Estados Unidos.
Roberto Sánchez, deputado federal e presidente do partido Juntos por el Perú, tem formação em psicologia. Ele já disputou cargos no Legislativo e no Executivo municipal sem sucesso. Em 2020, atuou como secretário de Desenvolvimento Social de Hural. Sánchez foi nomeado ministro do Comércio Exterior e Turismo em julho de 2021, durante o governo de Pedro Castillo, e foi o único a permanecer no cargo após sucessivas reformas ministeriais. Ele deixou o Executivo em dezembro de 2022, com a destituição de Castillo. Durante a campanha, Sánchez prometeu indultar o ex-presidente Castillo, condenado por tentativa de golpe de Estado, e defende a criação de uma nova constituição para o país.
Oito Presidentes em Dez Anos: Um Histórico de Instabilidade
Desde o fim do governo de Alberto Fujimori em 2000, o Peru experimentou uma profunda instabilidade política, elegendo oito presidentes em apenas 10 anos. Apenas três deles conseguiram concluir seus mandatos. O período foi marcado por deposições, renúncias e tentativas de golpe, evidenciando a fragilidade das instituições democráticas peruanas.
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O último presidente a completar o mandato de cinco anos foi Ollanta Humala, que deixou o cargo em 2016. Seu sucessor, Pedro Pablo Kuczynski, renunciou em 2018 em meio a denúncias de corrupção. Martín Vizcarra assumiu, mas foi destituído pelo Congresso em 2020. Manuel Merino ocupou a presidência por apenas cinco dias, sendo sucedido por Francisco Sagasti. Pedro Castillo, eleito em 2021, foi deposto em dezembro de 2022 após tentar dissolver o Congresso. Dina Boluarte assumiu em seu lugar, mas sofreu impeachment em outubro de 2025. José Jerí, líder do Congresso, ocupou o cargo brevemente antes de ser destituído. O atual mandatário, José María Balcázar, realizará a transição em 28 de julho.
Raízes da Crise: Divisões Socioeconômicas e Instituições Frágeis
Especialistas apontam que a instabilidade no Peru tem raízes profundas em sua formação socioeconômica. O professor de história Carlos Eduardo Vidigal, da Universidade de Brasília (UnB), destaca a divisão entre o litoral, voltado para o comércio exterior; a Amazônia, pouco explorada; e a região andina, focada na produção agrícola. Essa disparidade se reflete no eleitorado, com Keiko Fujimori liderando em Lima e Sánchez com forte apoio na zona rural.
Vidigal também ressalta a fragilidade institucional do Peru, com partidos políticos enfraquecidos e instituições que sofrem traumas frequentes, o que favorece a instabilidade. Os escândalos de corrupção envolvendo a empreiteira Odebrecht, a partir de 2016, abalaram profundamente a credibilidade da classe política tradicional, contribuindo para a sucessão de presidentes em curto espaço de tempo. Ex-presidentes como Alejandro Toledo, Allan García e Ollanta Humala foram denunciados, com Toledo e Humala presos, e García cometendo suicídio antes de ser detido.
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A professora de relações internacionais Carolina Pedroso, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), acrescenta que o sistema político peruano, que confere grande poder ao Congresso e facilita a destituição do presidente, é outro fator crucial para a instabilidade. A dificuldade de conciliação entre os poderes Executivo e Legislativo impede a continuidade dos governos.
Diante desse cenário, Pedroso expressa preocupação com a perpetuação de características negativas na cultura política peruana, independentemente do vencedor. Ambos os candidatos, Keiko Fujimori e Roberto Sánchez, enfrentam rejeição de parte da população, o que sugere que a eleição pode não resolver a crise, mas sim manter um padrão onde os governantes são eleitos menos por apoio popular e mais por serem a opção menos rejeitada.
Fonte: Mundo
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