O antigo Hospital Colônia de Barbacena, um marco sombrio na história da psiquiatria em Minas Gerais e no Brasil, fechou suas portas definitivamente nesta segunda-feira (25). A unidade, inaugurada em 1903 na Zona da Mata mineira, tornou-se um símbolo do chamado “Holocausto Brasileiro” devido a denúncias de superlotação, abandono e graves violações de direitos humanos ao longo do século XX.
Um Passado Marcado por Violações
Entre 1942 e 2020, cerca de 40 mil pessoas passaram pela instituição, com aproximadamente 24 mil óbitos registrados, segundo dados do governo estadual. A maioria dos pacientes internados não possuía diagnóstico de transtorno mental, incluindo indivíduos marginalizados pela sociedade da época, como homossexuais, mulheres consideradas “desonradas”, mendigos, epiléticos e presos políticos.
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Desinstitucionalização e Liberdade para Pacientes
Atualmente conhecido como Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB), o local vinha passando por um processo de desinstitucionalização de seus pacientes de longa permanência. Eles foram gradualmente transferidos para residências terapêuticas, buscando oferecer um ambiente mais digno e com maior liberdade.
Desde 2019, 68 moradores foram liberados para tratamento continuado em unidades especializadas. Os últimos 14 pacientes, todos idosos com comorbidades clínicas e de mobilidade, foram realocados na última semana para uma nova unidade em Barbacena, construída especificamente para atendê-los e que será gerida pela prefeitura municipal.
Vidas Marcadas pela Internação Prolongada
Esses últimos residentes viveram, em média, 49 anos internados. A idade média atual é de 73 anos, e alguns chegaram à instituição antes dos 15 anos. “Durante todos esses anos, eles foram muito bem atendidos, mas o que mais lhes faltava era a liberdade, porque estavam dentro de um hospital. É isso que a gente concretiza hoje”, afirma Márcio Antônio Resende, gerente de internação do complexo hospitalar.
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Reforma Psiquiátrica e o Legado de Barbacena
O psicólogo Elizeu de Assis, da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), explica que o processo de desinstitucionalização se iniciou em 1979, impulsionado pela luta antimanicomial, e que Barbacena se tornou um emblemático exemplo da reforma psiquiátrica no país. Sua tese de doutorado sobre o Hospital Colônia resultou no livro “Exilados na Pátria”.
A historiografia sobre Barbacena, incluindo obras como “Holocausto Brasileiro” de Daniela Arbex e “Nos Porões da Loucura” de Hiram Firmino, além da série “Colônia” do Canal Brasil, trouxeram à tona a realidade dos abusos cometidos na instituição. Parte dessa memória é preservada no Museu da Loucura, localizado onde funcionava o antigo hospício.
Debate sobre o Termo “Holocausto” e o Contexto Histórico
Apesar das denúncias de tratamentos desumanos, o psicólogo Elizeu de Assis pondera sobre o uso do termo “holocausto”, argumentando que ele pode descontextualizar a complexidade da situação. Ele ressalta que os tratamentos da época, como o eletrochoque, refletiam o modelo médico disponível, sem os recursos atuais como os neurolépticos. O pesquisador também aponta a superlotação crônica, com transferências massivas de pacientes de Belo Horizonte, como um fator que agravava a situação, muitas vezes sem o devido acompanhamento diagnóstico.
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Fonte: Estado de Minas